Estou sentado na cama
a olhar a parede vazia.
Ligo a televisão para ter companhia.
Não me apetece estar sozinho.
Apetece-me estar mal acompanhado.
Nunca me apetece estar sozinho.
Morro para o exterior do quarto.
Só existe o quarto.
Só existe o silêncio e a ausência, comigo.
Só existe a falta.
Só existe a inexistência.
Alapo na cama, completamente inanimado.
Contemplo a parede
Caído contra a parede oposta.
Acompanhado pelo vazio que inunda o quarto
e eu.
A ambos.
Inunda-nos a nós, toma o quarto para si.
E fora das quatro paredes vazias,
o nada.
o nada em todo o lado.
O meu coração bate, e dá sinais de vida.
Rapidamente é também engolido
Onde estás
...
quem és
Wednesday, February 16, 2011
Friday, February 11, 2011
Doloris causa
Dói, e não sei do que é
Se da mão, da cabeça ou do pé
Se dói tudo, ou se só dói uma por todas
As dores que julgo ter
E que parecem doer
E que sinto moer.
Não sei o que me dói.
Só sinto a dor
De lembranças e memórias
De medos e esperanças
E do presente.
Do Agora.
Retiro a venda. Começo a ver.
Doem-me os olhos
Tirem-me esta nova dor...
...
Ninguém.
Se da mão, da cabeça ou do pé
Se dói tudo, ou se só dói uma por todas
As dores que julgo ter
E que parecem doer
E que sinto moer.
Não sei o que me dói.
Só sinto a dor
De lembranças e memórias
De medos e esperanças
E do presente.
Do Agora.
Retiro a venda. Começo a ver.
Doem-me os olhos
Tirem-me esta nova dor...
...
Ninguém.
Sunday, May 2, 2010
Porque estás aí meu pequeno?

Porque estas aí meu pequeno? Estás aí sozinho, sentado nos degraus à porta de um velho teatro sem falar com ninguém, sem ninguém te falar ou sequer ver. Tens uma multidão à tua volta. Todos falam. Todos riem. Todos festejam. Todos menos tu. Não te sentes só? Não queres falar com ninguém? Porque te encolhes contra a parede, como se quisesses fazer parte dela?
Estás à espera de alguém meu petiz? Olhas tudo à tua com esses teus olhos cintilantes marejados com lágrimas salgadas, mas que insistes em não deixar rolar. Não te reprimas. Não te preocupes. Eu estou aqui a olhar por ti. Chora à vontade, ninguém te verá fazê-lo, ninguém sequer olhará para ti. Parece quase como uma maldição que continua a persistir. És invisível, és ninguém.
Porque ficas aí criança? Podias ir para outro sítio, um lugar onde outros te vissem. Podias falar com as pessoas. Porque insistes em ficar sozinho? Porque insistes em não seres visto? Muda. Luta. Vive. Ficas aí com esse rosto pálido, esse ralo cabelo negro e essas roupas escuras que em tudo te ajudam a fazeres parte do que te rodeia. Não sobressais. Não és mais que paisagem.
Porque choras infante? Sei porque o fazes. Acredita, já estive aí. Não és o único. Um dia mudará, mas tens que te mover. Tens que sair das sombras. Eu sei que elas sempre te chamarão. Nunca te vão abandonar. Farás sempre parte delas e elas de ti, mas podes ainda ver a luz. Sim, podes. Mesmo nesta noite onde a Lua não brilha ainda podes ver a luz. Nunca será a mesma luz que a dos outros, mas mesmo assim é melhor poder vislumbrá-la. Quando te sentires mais abafado pelas sombras agarra-te a essa pequenina luz dentro de ti e esforça-te para abraçá-la e não a deixar fugir.
Porque ainda aí estás meu bem? Eu quero que vás e fales com esse emaranhado de gente abafador. É assustador, mas tu consegues. Não? Eu sei que consegues, mas se insistes… Fica então. Fica aí sozinho. Fica aí a sofrer, só te fará mais forte. Fica, que eu fico também. Não deixo que te toquem. Não deixo que te vejam. Não deixo que te ouçam. Eu faço-te invisível. Eu faço-te ninguém…
Saturday, April 10, 2010
o amor ao contrário
1
Vieste com sonhos. Por isso te fechei a porta. Porque com sonhos não faço nada. Vieste com sonhos e irascível pediste-me que mudasse. Disseste: Dá-me a mão. Disseste: Fica comigo até ao amanhecer que a noite não me assusta. Ainda que esteja fria. Se estiveres comigo não tenho medo.
Eu dei-te a mão. Sem medo esperei que viesses até mim. Que na minha pele te pudesse encontrar. A noite estava longe, cada vez mais longe e algo em mim sussurrava em segredo. Algo em mim me relembrava como não me podias amar.
2
As estrelas estavam altas quando me deste a mão. Tinhas um corpo gentil mas não te sentia de verdade. Não soube ver como em ti esvoaçava alguma vontade de voar. Numa praia perdida. Num algures longínquo tocava-te no corpo e tu deixavas. Mas em mim nenhuns olhos existiam. Só vontade. Só desejo.
3
De voar pela noite. Pensei que pela tua mão o poderia fazer mas em mim nada o gritava em mim nenhumas asas se criavam ao teu toque. Pensei que por dentro me enternecesse. Pensei que em mim algo sonharia em nós. Em nós, como se fossemos um. Como se por fim fossemos um.
4
Lembro-me das tuas ancas. Lembro-me do toque da tua pele na minha. Lá longe ouvia vozes. Por vezes vagueavam em mim. Era uma noite de Agosto. E enquanto fingia fazer amor contigo tocava-te no corpo. Sem que as vozes me ocultassem uma verdade. Sem que o amor chegasse quando nunca eu o esperei.
5
Quando me tocaste foi como se algo caísse em mim. E mesmo assim pelas ondas do mar deixei-me ir. Mesmo assim deixei-me levar. Esperava o antídoto da solidão. Esperava o amor e quiçá; alguma paixão. Quando te olhei os olhos vislumbrei o vazio do meu passado. Um vazio de ti; de toda a gente. Numa praia deserta de verão fingíamos amar.
6
Longe de mim querer que ficasses para sempre. Só não queria estar sozinho. Queria encontrar a liberdade e não me ocorreu encontrá-la senão na tua pele. Quando me perguntaste se te amava: estava distraído em mim.
7
Amas-me?
8
[…]
9
Lembro-me da minha voz. Lembro-me do silêncio que se seguiu. Lembro-me de como fingimos os dois que eu nunca tinha falado. Como se o silêncio fosse imenso em nós, como se nada existisse senão os corpos, senão as ondas do mar bem perto e o mundo lá longe.
10
Amas-me? – disseste. E eu calei-me. Calei-me porque não podia falar. Lá longe as ondas e apenas isso. fingi não existir. Fingi não saber pensar. Até que por fim sussurrei em mim sem que pudesses ouvir. Vezes sem conta sussurrei. E quando te olhei soube ver como em ti sussurravas também:
11
Desculpa.
12
Desculpa.
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