Gira, dá a volta e puxa! Tão simples quanto isso. Fica fechado. Não há volta a dar, não há maneira de sair e assim, simples e rápido, o mundo fica selado.
Gira, dá a volta e puxa, é o que basta para não fugir, para não escorrer, para não mais viver. Um mínimo esforço e um grande resultado. Uma outra historia que não vai ocorrer e tudo continua como deve ser.
Gira, dá a volta e puxa! É isto que é preciso para fechar. Um preservativo é preciso lacrar para não deixar o esperma sair e engravidar, ou até adoentar. Coitados dos pequenos que ainda não são gente, nunca o serão, nunca tiverem a oportunidade de o vir a ser, basta esse rápido gesto ocorrer.
Tanta gente que poderia nascer. Tantos fechos e selamentos e lacramentos e impedimentos e nenhuma vida a ter lugar. Tanto esforço, energia, cansaço, satisfação e um pequeno gesto torna tudo em vão. Um pequeno movimento e tudo é para nada, tudo é para o momento, tudo é para o prazer.
Gira, dá a volta e puxa!
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Monday, July 11, 2011
Sunday, May 2, 2010
Porque estás aí meu pequeno?

Porque estas aí meu pequeno? Estás aí sozinho, sentado nos degraus à porta de um velho teatro sem falar com ninguém, sem ninguém te falar ou sequer ver. Tens uma multidão à tua volta. Todos falam. Todos riem. Todos festejam. Todos menos tu. Não te sentes só? Não queres falar com ninguém? Porque te encolhes contra a parede, como se quisesses fazer parte dela?
Estás à espera de alguém meu petiz? Olhas tudo à tua com esses teus olhos cintilantes marejados com lágrimas salgadas, mas que insistes em não deixar rolar. Não te reprimas. Não te preocupes. Eu estou aqui a olhar por ti. Chora à vontade, ninguém te verá fazê-lo, ninguém sequer olhará para ti. Parece quase como uma maldição que continua a persistir. És invisível, és ninguém.
Porque ficas aí criança? Podias ir para outro sítio, um lugar onde outros te vissem. Podias falar com as pessoas. Porque insistes em ficar sozinho? Porque insistes em não seres visto? Muda. Luta. Vive. Ficas aí com esse rosto pálido, esse ralo cabelo negro e essas roupas escuras que em tudo te ajudam a fazeres parte do que te rodeia. Não sobressais. Não és mais que paisagem.
Porque choras infante? Sei porque o fazes. Acredita, já estive aí. Não és o único. Um dia mudará, mas tens que te mover. Tens que sair das sombras. Eu sei que elas sempre te chamarão. Nunca te vão abandonar. Farás sempre parte delas e elas de ti, mas podes ainda ver a luz. Sim, podes. Mesmo nesta noite onde a Lua não brilha ainda podes ver a luz. Nunca será a mesma luz que a dos outros, mas mesmo assim é melhor poder vislumbrá-la. Quando te sentires mais abafado pelas sombras agarra-te a essa pequenina luz dentro de ti e esforça-te para abraçá-la e não a deixar fugir.
Porque ainda aí estás meu bem? Eu quero que vás e fales com esse emaranhado de gente abafador. É assustador, mas tu consegues. Não? Eu sei que consegues, mas se insistes… Fica então. Fica aí sozinho. Fica aí a sofrer, só te fará mais forte. Fica, que eu fico também. Não deixo que te toquem. Não deixo que te vejam. Não deixo que te ouçam. Eu faço-te invisível. Eu faço-te ninguém…
Saturday, December 19, 2009
Liberdade de expressão

Eles caminham por uma densa floresta, as árvores são baixas, estranhamente baixas. A zona mais baixa das copas quase lhes toca na cabeça. É Outono e as árvores à sua volta brilham douradas, vermelhas, castanhas e amarelas. O chão da floresta está coberto por um manto de folhas secas das mesmas cores que as árvores.
Andam de mãos dadas. Ele com o seu cabelo castanho, quase preto… Está vestido com uma túnica azul-escuro e umas calças de linho beges. Os seus olhos são pretos e profundos e ele amarra com uma mão forte a suave mão dela. Ela tem os cabelos lisos, ruivos e veste-se com uma camisola verde de lã e uma saia comprida até abaixo do joelho castanha escura. Os seus olhos são cor de mel, delicioso mel. Ela prende o cabelo, da frente atrás com um laço feito com um fio de couro castanho, no cabelo dele, do lado direito há uma madeixa de cabelo mais comprida que o resto, e toda ela está amarrada por uma fita vermelha.
Eles namoram e no início ele tinha o cabelo mais comprido e atava-o atrás e ela tinha-o muito mais curto mas atava-o da mesma maneira.
Percorrem aquela floresta de olhos fechados pois não conseguem olhar um para o outro. Não aguentam o olhar um do outro porque sabem o que têm que fazer e o que isso levará a acontecer. E por estranho que pareça ambos pensam no dia em que se conheceram.
“Ela conduzia a velha carrinha do seu pai, passava rente entre as árvores. Transportava a fruta acabada de colher, do pomar para a fábrica de tratamento da fruta. Era o que ela sabia fazer, era o trabalho dela, era o que lhe tinham ensinado. É a pequena missão da sua simples vida. Ela era ainda jovem e não sabia nada da vida para além disso, muito menos sobre rapazes.
Chegada à fábrica, um jovem rapaz apareceu vindo de dentro para descarregar o que ela trazia, era ele. Era muito bem parecido e pela aparência um pouco mais velho e mais alto que ela. Começou a descarregar a carrinha sem aviso e quando ela saiu da carrinha para o ajudar ele disse:
- Não precisas de ajudar…
- Não?
- Não…
- Não preciso, mas assim é mais rápido. – E sem lhe prestar atenção começou também a descarregar.
Ao fim de um demorado silêncio ele voltou a falar
- Não devias estragar as tuas mãos. São demasiado bonitas para isso.
- Obrigada. – Disse corando intensamente.
Isso foi o suficiente para a fazer parar. Ela encostou-se à carrinha e pôs-se a brincar com as luvas que usava para carregar as caixas que tinha guardado no cinto dela.
- De nada. As verdades são para ser ditas. – Disse ele com um sorriso na cara. – Bernard.
- O quê? – Perguntou aparvalhada.
- Bernard! O meu nome é Bernard…
- Ahhh, sim! Sim, claro. Lúcia. Chamo-me Lúcia…
- Então olá Lúcia.
- Olá. És novo por cá?
Ela questionava-o agora curiosa pela espontaneidade daquele rapaz estranho mas querido. Ele estava continuamente a entrar e a sair do armazém a levar as caixas mas isso não os impedia de falar.
- Sim, sou. Antes trabalhava nas lojas enquanto era jovem e engraçado e as senhoras achavam-me piada e isso incentivava-as a entrar e comprar por causa do meu aspecto. Trabalhava com a minha mãe, agora trabalho aqui com o meu pai, o Hugo.
- És filho do Hugo?
- Sim…
- É um bom homem…
- Sim, é…
- E aposto que ainda atrais as senhoras… – Disse desafiadoramente.
- Desculpa?
- Ahhh… Nada…
- Vá lá! Não ouvi…
- Disse que ainda deves atrair as senhoras.
- Sim, mas só as mais velhas
- Isso não pode ser verdade, porque eu até acho que sou mais nova que tu! - Disse enquanto entrava na carrinha e ligava o motor.
- O quê?
- Até logo senhor Bernard…
- É só Bernard… Lúcia… – Chamou quando ela já se desviava.”
Eles encontraram-se muitas vezes depois desse primeiro momento e a amizade aprofundou-se de cada vez que se encontravam. Tornaram-se muito íntimos e passavam todo o tempo que podiam juntos.
Lembram-se de todos os momentos bons que passaram juntos e que partilharam, alguns são mais vivos e mais reais, outros estão mais apagados e esquecidos, mas o facto de darem as mãos e estarem assim um tão perto do outro, traz lembranças esquecidas à tona, como o primeiro momento em que o namoro se viu.
“Era Verão. Encontravam-se por baixo de uma árvore solitária ancestral no cimo de uma pequena colina verdejante. Fazia muito calor e eles estavam deitados na relva fresca, sob a sombra para se refrescarem, nem que apenas um pouco. Bernard olhava para o céu com os braços por baixo da cabeça, com um olhar inquiridor, pensando em mistérios na cabeça dele. Lúcia estava deitada ao lado dele, de olhos fechados com um suave sorriso nos lábios.
Bernard levantou-se, olhou para baixo, para ela, e disse:
- O dia está muito bonito.
- Pois está… – Falou sempre de olhos fechados.
- Não há nuvens… Faz um calorzinho bom…
- Humm humm…
- Ainda bem que fugimos ao trabalho.
- Pois…
- É bom estar aqui sem fazer nada…
- Diz lá o que queres de uma vez Bernard…
- Bem, é que… tu sabes… – Tentou dizer muito atrapalhado pela frontalidade dela. – Sabes sempre o que quero fazer… que chatice…
- Sim, pois… E quando é que te vais decidir a dizer-me o que queres?
- Sim… Bem… Não é bem dizer-te. - Disse ele corando. – Eu mostro-te…
Baixando-se sobre a cara dela fechada, dá-lhe um suave e breve beijo nos seus doces lábios róseos. Sem abrir os olhos, Lúcia admirou-se e mostrou alargou o seu leve sorriso. Ele sem saber o que fazer voltou a deitar-se envergonhado.
De súbito Lúcia levantou-se rapidamente, olhou para baixo para Bernard e sem avisar puxou-lhe o fio de couro que lhe atava o cabelo e prendeu o dela. Ela tirou a fita vermelha que lhe prendia o cabelo e estendeu-lha a ele.
- Enquanto estivermos juntos isto não pode sair do teu cabelo.
- Nem para tomar banho?
- Ok, excepto quando tomares banho…
- E se eu quiser cortar o cabelo? – Perguntou sorridente.
- Também pode ser. - Disse revirando os olhos. – Mas que menina. – E riu-se. Riram-se ambos. – Mas em mais nenhuma circunstância.
- Tudo o que a princesa desejar… – Gozou fazendo uma vénia sentado.
Juntos riram-se naquela longínqua e doce tarde de Verão.”
Agora lembram-se desses bons momentos e já sentem saudades e desejam poder voltar atrás com todas as suas forças. Mas sabem que isso é impossível, que nunca vai acontecer, que por tudo o que possam fazer nada trará o passado de volta.
Todos da comunidade vivem oprimidos pelos desejos daquele tirano, daquela horrível pessoa que insiste em fazer a sua vontade ser cumprida. Toda a gente trabalha para o Lorde Xifon, para fazer a sua riqueza aumentar a olhos vistos cada dia. Todas as suas vidas são guiadas para agradar, para dar prazer a essa criatura desprezível. Tudo o que fazem é para agradar àquele opressor que todos odeiam, de quem toda a gente se quer ver livre, mas contra quem ninguém faz nada. Têm medo do que possa acontecer aos seus, do que ele possa fazer.
Eles caminham pelo meio daquela floresta acompanhados por muitos outros como eles. Todos estão silenciosos, todos estão cabisbaixos, todos estão cientes do que vão fazer, da posição que tomaram e que vai mudar as vidas de muitos. Depois da escolha tomada, da posição escolhida não há volta a dar, todos sabem disso, e agora era tarde para voltar atrás.
- Desculpa. - Disse Bernard, quebrando o silêncio no qual andavam, olhando para ela.
- De quê? – Perguntou Lúcia admiradíssima.
- De não te poder proteger… De te levar a fazer coisas… De te trazer para aqui… para o meio disto…
- Pára. – Disse estacando e agarrando com as duas mãos a cara dele. – Eu estou aqui porque quero. Sabes que sim…
- Sim, eu sei, mas preferia que não estivesses, que não o quisesses… mas adoro que estejas aqui comigo…
- É onde quero estar, quero marcar uma posição. Quero fazer algo importante, não posso deixar que os outros façam tudo por mim. E quero estar sempre do teu lado…
- Mas e os teus pais? Disseste-lhes?
- Porque é que só agora queres saber? É claro que não sabem… – Disse virando a cara. - Deixei-lhes uma carta a explicar.
- Deve ser melhor assim…
- É… Talvez… Eles hão de compreender. Hão de ultrapassar tudo…
- Sabes que no fim quem vai pagar são os que ficam…
- Sim, eu sei, vai custar a todos… Mas eles são fortes, todos eles…
Chegam ao seu destino, olham em volta e vêem os seus rostos espelhados nos rostos À sua volta, o medo, a dúvida, a coragem. Sentem o vento a bater nas suas caras enquanto vêem outros que já avançaram. Olham um para o outro.
- Tens a certeza disto? – Perguntou ele.
- Sim, tenho. – Mas os seus olhos mostravam dúvida e estavam marejados de lágrimas, reluzentes á luz do Sol.
- Depois não há volta a dar… Sabes disso… – Não era uma pergunta.
- Sim… mas estou contigo, por isso não tenho dúvidas.
- Então? Pronta? - Também ele já tinha lágrimas prontas a serem vertidas.
- O melhor que consigo…
Sem aviso imitam tantos outros à sua volta e dão um passo em frente, para a luz intensa do entardecer. O vento passa à sua volta. Caem tão rápido que não conseguem sentir o ar. Eles choram, abraçam-se, beijam-se com um fervor que nunca antes sentiram. Eles tentam ter tudo antes do seu prematuro final. Então segundos antes, acalmam-se e deitam-se lado a lado no ar e olham nos olhos um do outro…
Sunday, November 29, 2009
O carro

À medida que conduzo a nossa velha carrinha por estas estradas desertas, estou a olhar em frente atento ao caminho e tu enrolada no assento ao meu lado olhas para essas planícies secas com vegetação quase inexistente. É o crepúsculo mas ainda não liguei as luzes, não agora, não neste momento belo á medida que o Sol se põe á nossa frente, lenta mas insistentemente.
Eu olho para ti e nem reparas, e penso em tudo o que passamos, penso principalmente no teu pedido meses antes para fazermos esta viagem e apercebo-me, pela primeira vez, que te amo.
“Estamos na tua casa, estamos a ver um programa qualquer, sentados no sofá dos teus pais. Estás encostada a mim e eu com um braço sobre os teus ombros. Sem aviso viras-te e com um olhar de quem acabou de ter uma epifania dizes:
- Temos que ir àquela cidade.
- Ahh?
- Àquela cidade. - Dizes apontando para a televisão. - Temos que ir lá.
É uma cidade qualquer no sul sem qualquer relevância cultural, social ou económica, mas que por qualquer razão decidiste visitar.
- Porquê? – Pergunto.
- Porque eu quero!
- Está bem…
- A sério? Vamos?
- Pode ser. Depois vemos isso…”
Passados quatro meses aqui estamos e apenas agora me apercebo que te amo. Decidimos passar três semanas naquele simples e aborrecido sitio que demora dois dias a chegar. Vamos fazer coisas que realmente não gostamos mas que todas as pessoas que estão de férias fazem.
Sem desviares os olhos da paisagem que passa rapidamente pela janela, vens e encostas-te a mim como fazias á quatro meses atrás quando decidimos fazer esta viagem, esta entediante viagem.
“Numa manhã antes de entrarmos para as aulas na universidade, estou encostado na parede do edifício em que vais ter aulas e tu encostas-te a mim dás-me um suave beijo nos lábios e dizes muito envergonhadamente mas muito sentida:
- Amo-te.
- Eu também. – Respondo sem pensar muito no que disse, quase mecanicamente.
É a primeira vez que mo dizes e eu não dou muita importância e tu também não dizes nada a pensar que eu achei aquela situação muito profunda, que não tenho palavras para o descrever, o que não é verdade. Nem te passa pela cabeça que eu não penso o mesmo que tu.”
Sem me aperceber, e provavelmente sem tu te aperceberes, adormeces encostada a mim e o teu peito move-se lenta e ritmadamente, os teus olhos estão fechados tão levemente que o simples toque de uma pena poderia abri-los.
Tivemos os nossos maus momentos, tantas discussões e tantos problemas que me fizeram querer ir embora. Passamos por isso tudo e agora estamos aqui, assim. Parecem tão perto esses momentos difíceis para ti, mas ao mesmo tempo parece que se passaram á anos atrás.
“- Cala-te! – Ordenas. - Já estou farta!
- Mas eu apenas disse que…
- Só dizes coisas absurdas. – Dizes enfurecida. – Nunca mostras afecto. Nunca falas de coisas que importam, de coisas que nos importam. Não te importas comigo…
- Eu não sou assim, eu não falo de sentimentos. - Digo irritado. – Tu sabes disso…
- Eu sei, eu sei e não gosto disso, mas gosto de ti e quero ficar contigo…
- Então fica. Fica. Mas não me peças para mudar. Sabes que não o farei.
- Sim, sim eu sei, mas não quero ficar assim.
- Se não te sentes bem, então… vai…
- Mas… eu… Amo-te, amo-te muito….
- Eu também…
E depois beijámo-nos e tudo fica bem entre nós. E tu não reparas que eu não disse aquelas três pequenas palavras que significam tanto para ti. Eu podia ter ido embora mas decidi ficar, por ti, para não te ver chorar, para não ouvir as tuas lamúrias.”
Eu continuo a conduzir, está tudo escuro, e reparo que a gasolina está a acabar por isso paro na estação de serviço seguinte e já á algum tempo que a noite caiu. Encho o depósito e entro na carrinha. Tu acordas-te quando saí mas ficas-te na mesma posição por isso quando entro tornas a ficar encostada a mim e logo voltas a adormecer, e nós continuamos a nossa longa viagem.
“- Seu porco. – Cospes-me na cara. – És um nojo, atiras-te a qualquer puta que olha para ti…
- Desculpa, eu não queria…
- Não querias a puta que te pariu. O que fazia a tua língua pela garganta dela abaixo? Não me venhas com histórias. Se não entrasse naquele momento de certeza que já estavas a foder com aquela vaca de merda.
- Mas bebi… e sabes que…
- Sei que o quê? Sei que o quê? Só por beberes uns copos a mais pensas que é justificação para andares metido com essas megeras nojentas para quem olhas? Não me venhas com as merdas de sempre.
- Eu não quero… por favor… amor ouve-me…
- Já estou a ouvir, e a ver as merdas que fazes ainda melhor. È melhor começares a explicar-te, bem e rápido porque estou sem paciência para olhar para essa tua carantonha.
E eu explico-te e tu aceitas-me de volta e decides não voltar a falar deste assunto nunca mais. Eu penso na hipótese que tive de me ir embora, de partir deste longo episodio das nossas vidas que insiste em não acabar, que nunca teve tanto significado para mim como tem para ti. Mas acabo por ficar, acabo sempre por ficar, talvez por ser o que conheço melhor, por ser aquilo que me faz sentir mais confortável. E então tu dizes:
- Amo-te…
- Eu também…
Tudo fica bem entre nós e tu não pensas no porquê de não o dizer, nunca reparas nas palavras que eu não digo, nem duvidas do que sinto. Nós continuamos como sempre estivemos, com apenas mais um obstáculo, um pouco mais magoados e um pouco mais vazios.”
Passa um carro por nós com os faróis no máximo e eu acordo de um transe qualquer, dum pensamento qualquer. Está tudo muito escuro á nossa frente, mal consigo ver. É raro passar um carro por estas longas e desertas estradas. Eu olho para baixo, para ti, e vejo os teus lindos cabelos castanhos lisos e brinco com eles entrelaçando-os entre os meus dedos.
“Tu estás por cima de mim e movimentas para cima e para baixo, num movimento ritmado. Os teus cabelos descem pelas tuas costas suadas colando-se a elas e eu amarro-te a cinta com as minhas mãos incitando-te. Tu dobras-te e agarras fortemente os meus cabelos. Beijas-me intensamente e de súbito levantas-te e gritas de prazer.”
Eu vergo-me e beijo gentilmente o topo da tua cabeça e tu estremeces em resposta. Eu paro imediatamente, não te quero acordar. Pareces tão pacífica e dócil e inesperadamente chamo-te num sussurro:
- Lynn…
Nada. Não me ouves.
- Lynn…
Chamo-te mais alto, desta vez estremeces novamente, mais bruscamente.
- Lynn!
- Sim?... – Dizes ainda meia sonolenta enquanto me olhas apenas com um olho.
- Eu amo-te Lynn…
Tu levantas-te subitamente desperta, olhas-me nos olhos intensamente como se te apercebesses de algo importante e respondes:
- Eu também te amo…
Então beijas-me como nunca antes. Beijas-me com intenção ardente, com paixão, com todo o amor que sentes e consegues colocar neste simples gesto. Eu tento responder da mesma maneira. Neste momento inquebrável, inesquecível embatemos de frente num camião, há sangue por todo o lado…
Thursday, November 26, 2009
Uma escolha

Numa noite de neve em que a lua cheia espreita por entre as nuvens, um carro vermelho desportivo viaja a grande velocidade por uma via rápida que atravessa planícies geladas com vegetação congelada. Parece um relâmpago que interrompe um dia silencioso, seco e ventoso.
- E então? Estás pronta? – Berrou ele por cima da música que passava no rádio.
- Por ti sim, mas por mim… não dá para alguém se preparar para algo como isto.
- É rápido, vais ver. É sempre muito rápido.
- Como é que sabes?
- Nos filmes é sempre rápido.
- Hahaha… São filmes. Lá é sempre tudo muito rápido.
- Sim, pois é. Mas não pode ser muito diferente.
- Está bem… se tu o dizes…
Continuam aquela curta e rapidíssima viagem em direcção a nenhum sítio. Ao verem um local extremamente iluminado no meio de um campo sem vegetação, apenas um manto de neve a cobrir o chão plano e não acidentado, saem da estrada e dirigem-se para lá.
Param o carro, saem e dirigem-se à mala. Ele abre a mala tira dois pequenos instrumentos de igual forma e tamanho, e dá um a ela. Eles dirigem-se ainda mais para o centro da luz e estacam um em frente ao outro.
Eles conseguem ver perfeitamente as faces um do outro com aquela luz, a sua juventude está explícita nas suas faces. Têm as caras vermelhas pelo frio e conseguem ver claramente as lufadas de ar à sua frente. Estão de manga curta, mas naquele momento não importa, não é o mais importante. Ela segura com as duas mãos uma pistola direccionada ao peito dele e ele… com uma mão aponta ao peito dela.
- Não apontes ao meu coração. Quero-o intacto com o meu amor por ti. - Disse ela desviando também a sua arma do peito dele.
Apontando à cabeça dela, ele volta a direccionar com a mão livre a arma dela ao seu peito.
- Eu quero que tu deixes uma marca profunda no meu coração. – Disse com um simples sorriso desarmante. – Aos três…
Um… Dois…
Wednesday, November 18, 2009
Sofá

Tu estás aqui sentado neste sofá, aconchegado mesmo ao meu lado, estamos encostados no braço, as nossas pernas estendidas pelo resto do sofá e tu encurralas-me contra as costas, como é bom este suave e feliz aperto.
Estás vestido com a roupa que chegas-te, as tuas calças de ganga e a tua camisola listada, negra e cinza, os teus cabelos arranjados de forma a parecerem despenteados, nada em ti parece confortável. Enquanto isso, eu pareço gritar conforto do fundo dos meus pulmões, vestida com este camisolão de lã grossa que me chega a meio das coxas com meias também de lã que me chegam aos joelhos. Mas apesar de tudo tu transpiras relaxamento para mim. Fazes-me sentir tão bem perto de ti…
Tocas-me terna e docemente, os teus pés descalços roçam nas minhas pernas e com eles desces as meias de modo a tocares nelas. As tuas mãos envergonhadamente sobem pelas minhas largas mangas e deslizas os teus dedos num movimento de mar nos meus braços. Um simples toque teu deixa-me toda arrepiada, sentir a tua pele a tua proximidade desta maneira enlouquece-me de prazer. Mas tu não fazes nada de mais, apenas me tocas suavemente, quase como a tentar-me, mas sem o fazeres realmente, apenas o fazes porque sim.
Uma música qualquer toca na aparelhagem e tu movimentas-te de acordo com a melodia quase como hipnotizado, enfeitiçado pelos sons, pelo incansável ritmo que define a beleza dessa banal mas linda música. Eu simplesmente mexo no meu cabelo brincando com os meus caracóis como sempre faço e inesperada mas ternamente, sinto os teus lábios tocando quase acanhadamente o meu pescoço e toda a minha pele se arrepia e treme suavemente. Dás pequenos mas doces beijos por todo o meu pescoço, no meu ombro e na parte do meu peito exposto pela camisola, não tens medo da minha rejeição mas também não a dou.
Sei que não o queres fazer, eu também não. Mas sem intenção pareces secretamente desejá-lo. Eu desejo ficar assim para sempre, estar aqui bem ao teu lado e tu tocando terna e eternamente, desejando o que não queres, querendo o que realmente não esperas apenas existir assim um bem perto do outro.
Entrelaças a tua mão na minha lentamente. Pareces querer descobrir como a mão funciona, como se dobra com essa tua propositada lentidão. Espero que acabes de me explorar envergonhadamente. Facilmente coras, tal como fazes agora, e reparas como que de surpresa o que estavas a fazer, e o que poderia parecer, então coloco a tua cabeça no meu ombro, isso parece acalmar-te. Pareces relaxado mas estás nessa posição quase precária, basta um toque para te deitar abaixo do sofá, um toque e tu desfazes-te e apesar de tudo, infantilmente adormeces a meu lado como se de um sonho tudo se trata-se.
Wednesday, November 11, 2009
A Garrafa

Tenho esta garrafa bem ao meu lado. Desejo que me faça esquecer do que se passou, que me faça esquecer daquela pessoa. Da pessoa que me encheu de alegria e me tirou daqueles pensamentos depressivos e negros. Desejo esta garrafa como nunca, quero voltar a sentir-me como se tudo fosse um sonho como se tudo fosse alegre e não houvesse realmente tristezas, quero-me sentir como se tudo fosse correr bem e se pode fazer tudo e qualquer coisa.
Tenho esta garrafa e já falta um pouco do seu conteúdo. Este rancor, que cresce mas diminui, por aquela pessoa que me irritou e precisa de crescer. Cresceu e tornou-se alguém mas precisa crescer e tornar-se realmente alguém. Fico fraco só de pensar que perdi alguém que me conseguiu fazer feliz, mas quero ficar fraco assim. Poderia ser tudo mais fácil, mais simples, sei que sim, tenho a solução perfeita.
A minha garrafa já vai a meio. A realidade parece tornar-se um sonho e aquele ser, já não parece um problema, uma coisa a odiar, mas não um problema, não mais, não agora, não por enquanto. Fico feliz por estar assim por desejar rancor por desejar bater em alguém que já me fez tão feliz e me acalmou a alma, o meu ser, aquilo que sou. Não lhe quero fazer nada, apenas poder odiar calmamente e sem interrupções. Quero odiar em paz.
Já falta um bom bocado a este precioso líquido. Mas quem lhe deu autorização para me tirar a minha infelicidade, o meu ódio pelo mundo, agora que me tirou isso ficou com o meu ódio todo para si, bem o merece. Espero que seja feliz mas que o seja longe de mim, longe da minha infelicidade, longe da minha vida, longe das minhas pessoas. Continuo a gostar daquele reles ser, custa-me fazer-lhe mal, mas hei de chegar lá, hei de chegar ao ponto de desejar desfazer, destruir, mas por enquanto estou bem.
Tenho uma garrafa vazia a minha frente…
Tuesday, November 3, 2009
Nuvem

Ele caminha sozinho por aquelas ruelas a pensar no que fazer, no que dizer, no que mostrar. Sente-se tentado a destruir, a desfazer, a despedaçar algo, alguém. Mas não sabe, não sabe de nada.
Caminha sem sentido, sem rumo, na semi-obscuridade, os que passam por ele, reparam todos, mas desejam não o fazer, pois o ele negativo invade cada poro das pessoas. Percorre a cidade toda e vê gente sem ver, os seus amigos fogem, nem chegam perto dele pois vêm, mais que sabem, que ele os escorraça. Desejam não olhar, não ver aquela desgraça em que aquele ser, aquela pessoa se tornou, por não saber.
Começa a chorar sem se controlar, não sabe porquê, porque razão, apenas sabe que não sabe. Ele simplesmente não sabe. E isso irrita-o, trespassa-o por dentro, esta ignorância incompreensível.
Está a morrer por dentro e ele sabe-o. Ele sabe disso e mesmo assim não quer saber, pois ele só quer ter a certeza, só quer saber. Mas não sabe, não consegue saber, não pode saber, não agora.
Tenta se lembrar de quando tudo começou, porque começou, onde começou, mas não sabe. Foi como se estivesse destinado, como se a natureza assim o quisesse e tal aconteceu naturalmente, tal como decidiu que todo ele se torna negro, que todo ele chovesse.
Anda sem parar, não sabe se para fugir, se para procurar, mas continua a caminhar, a percorrer a cidade. Não para. Não quer parar. Não pode parar.
Uma dor trespassa-lhe o peito olhava para o chão, mas isso não o impediu de saber o que se encontrava á sua frente, não precisava ver, não precisava cheirar pois sentia, o seu corpo tal lhe dizia. Ele não queria acreditar, mas assim era. Como um raio ele tornou-se luz, tornou-se um final de dia resplandecente. Levantou os olhos e viu, viu na sua cara, no seu olhar o reflexo do seu. Como duas criaturas que são um só ser, juntaram-se, agarraram-se, beijaram-se como se não houvesse amanhã…. Beijaram-se como se não existissem…
Monday, November 2, 2009
As Minhas Costas

Estamos a passear pela cidade, as pessoas passam por nós, olhando e outras não, apenas um dia normal como os outros. Caminhamos lado a lado, com uma certa distancia, sem nos tocarmos como sempre fazemos, essa difícil mas reconfortante situação, demasiado comum entre nós e estranha para o mundo. Subitamente, ao passarmos por uma brecha ente dois prédios, o Sol do entardecer bate em nós. Tu com essa linda blusa negra dizes-me:
- Abraça-me!
Eu hesitantemente mas sem pensar muito nisso abraço-te, tu tentas-te desculpar com uma tal invenção de estares com frio, como sempre fazes. Aceito o que faço, estranhamente, e tu pareces gostar e pergunto-me porque nunca mo pediste antes.
Lembro-me, recordo momentos passados, como num sonho. Numa tarde de Verão pegar em ti ao colo e apesar de protestares, nem tentas te libertar. Num concerto ao qual me convidas-te e eu a sentir-te bem perto de mim. No nosso café habitual onde tu me elogias e eu coro estupidamente. Os teus constantes convites românticos. Os teus lábios tocando suavemente o meu pescoço. A minha mão tocando gentilmente na tua e tu retrais-te ofendida. Isto interrompe as minhas memórias.
Penso em todos os raros avanços que tentei, em todas as palavras doces que te dirigi e a tua fuga irracional, a tua renegação ao meu afecto. Depois vejo as tuas tentativas de me tocar, de me sentir, de me convencer que é tudo pura e simplesmente natural. Realizo-me desse impasse, dessa constante hesitação. Apercebo-me do poder que tens, o poder que te dei sem me aperceber. Manipulas-me como queres e eu, muito ignorantemente, sigo-te, como um cachorrinho perdido. Só tu mandas, só tu tocas, só tu sentes, só tu podes mostrar afecto. Eu tento, tu foges, tens medo…
Nós continuamos a caminhar abraçados, com um movimento mecânico e estranho pelo contacto, mas bem-vindo e reconfortante. Gosto disto, gosto de te ter assim, comigo. Passear pelas ruas sem rumo, sem sentido, sem intenção.
Como gosto estar contigo, estar perto de ti, passar tempo contigo. Adoro que tu venhas ter comigo, que me mostres afecto, que me mostres o mundo. Não é isto que preciso.
-Adeus!
Tu ficas a olhar, com um ar interrogativo, para mim, enquanto tentas descobrir o que se passa, o que provocou esta súbita reacção. Não te mexes, não sais do mesmo lugar aparvalhada. Enquanto olhas para mim, para as minhas costas eu vou-me, para não mais voltar…
Wednesday, September 23, 2009
Chuva...

Quando acordou nesse dia não poderia imaginar o que se passaria. Como todas as manhãs foi tomar banho com os seus champôs florais favoritos. Secou-se e penteou os seus longos cabelos loiros e prendeu um passador com uma borboleta negra. Vestiu o seu leve vestido branco de alças e com rendinhas.
Ao sair de casa para aquele dia enublado e frio de Inverno, a sua avó reclamava com o que ela vestia mas ela nem deu importância e pegou na sua sombrinha branca de rendinhas e foi caminhando, dançando, para a sua escola, a escola secundária de sunnyvile. A caminho da escola ela via ao longe a prisão construída recentemente, que reunia alguns dos criminosos mais perigosos, que expelia por uma enorme chaminé uns vapores vermelhos que se alastravam pelo céu tingindo as nuvens.
Sim. Definitivamente. O vermelho era uma boa cor.
Mas apesar de tudo ela não gostava daquela prisão, do seu significado. Era um mau sinal para a sua cidade, tornava-a um sítio pior pelo menos para ela. Coitadas das pessoas que passavam lá o seu tempo, todos os criminosos, os assassinos, os torturadores, os violadores. E ainda por cima tinha muito mau aspecto.
Já estava perto do centro da cidade e ainda via aquele edifício feio e a sua horrível chaminé. A medida que passava toda a gente olhava para ela, devido á sua indumentária, mas ela nem se apercebia, era bom não ter essa noção.
De repente ela sentiu algo, através da sua linda sombrinha. Demorou algum tempo até se perceber do que se tratava, mas mesmo assim foi das primeiras pessoas a aperceber-se.
Estava a chover. Sim, estava.
Ela não queria acreditar. Depressa as pessoas partiram em debanda, gritando e correndo e empurrando e puxando e fugindo. As pessoas criavam um pandemónio. Mas ela não queria saber, porque…
Chovia… Sim, chovia….
Ela ali no meio, vestida de branco, rindo e rindo, rodando e rodando. Estava feliz, estava alegre, pois o seu sonho se concretizara, o maior desejo de todos estava a acontecer, a ser realizado, mesmo em frente dela. E tudo por causa daquele horrível sitio, com aquela horrível chaminé, que agora ela passara a adorar, a amar verdadeiramente. Aqueles lindos vapores tornaram tudo possível.
Que lindo… Que belo… Que poético…
E ela dançava e pulava e rodopiava e banhava-se e deleitava-se.
Sim, definitivamente o mundo poderia tornar-se um lugar melhor. Sim, certamente poderia, porque…
Chovia… Chovia Sangue…
Tuesday, September 22, 2009
Saberia Ela...

A sua pele branca e fria, salpicada pelas gotas de chuva, os seus longos cabelos negros espalhados á sua volta, numa poça de um liquido escuro, e os seus olhos, os seus olhos fixados num céu, que não podem ver.
Que horrível noite de Inverno para estar ali.
Saberia ela que seria a última vez que iria ao trabalho? Saberia que aquele cliente que insistiu em contar-lhe a sua vida, seria a última pessoa com quem falaria? Saberia ela que o seu peixe irá definhar depois da última vez que o alimentou nessa manhã? A última vez que se penteou e vestiu. A última vez que despachou a sua mãe ao telefone e a última vez que almoçou com a sua irmã.
Porque será que decidiu se desviar do seu caminho habitual? Saberia ela o que a esperava naquele beco escuro? Saberia do homem esfomeado, não só de comida, que lá estava? E saberia ela do punhal que ele escondia? Quereria ela sentir aquela dor no seu âmago e o sangue quente a jorrar naquela noite fria? Porque não soltou ela uma única lágrima? Porque não gritou ela de dor, raiva, frustração enquanto desfalecia, por ter a sua vida interrompida daquela maneira?
Nesta noite escura, fria e solitária, tirada de uma história de terror, o beco, o homem, o punhal, a dor… o alivio.
Que horrível noite de Inverno para estar ali…
Que horrível noite para se morrer…
Thursday, September 17, 2009
The Docks

As he gets up he’s still thinking about the previous evening, he goes to his desk and puts another piece in the puzzle in progress. Then, after his morning bath, he picks up the clothes his going to wear without much thought, combs his hair roughly and ties it in the end.
When he gets to the kitchen his father is already gone, typical and his mother doesn’t say anything as usual. He grabs an apple and goes out, into the cold morning, to another day in university.
As he turns the corner in the docks, he sees a girl, a young girl maybe his age, dirty from working, coming out of a warehouse.
She is beautiful and somewhat appealing not that he notices girls much…
She is running and when she sees him she starts talking in a strange language but he know she is pleading for help.
Suddenly blood comes rushing through her mouth; she starts crying and screaming in pain. After a couple of excruciating minutes she drops dead.
Horrified he feels sick, he tries to stop what was coming with his hand, but it’s to late, his hand gets all dirty and sticky. He is used to see dead people, dead people for god’s sake, not death. He runs back around the corner and as he starts to calm down, his mind starts to work, he goes back to see the body again but it was gone…
Thursday, May 28, 2009
Ele estava a olhar para mim...

Num pequeno apartamento, daqueles que não têm quartos, e que a sala e a cozinha estão na mesma divisão, morava 1ª pequena família de 3. Num dia de chuva houve um descarrilamento de um comboio. O dono da casa perdeu a sua mulher e filha nesse acidente. Vendo a sua vida sem rumo nenhum, pendurou uma corda, mesmo no centro do seu pequeno apartamento, e enforcou-se com um sorriso na cara…
No mês passado, uma das pessoas mais forretas neste mundo, que por acaso é o meu irmão, comprou um pequeno apartamento nos subúrbios da nossa terra natal. Era um mini-apartamento em que o quarto, sala e cozinha eram uma só divisão. Desde que o comprou ele andava muito irrequieto como se algo o preocupasse. Então ele decidiu pedir-me ajuda para limpar a casa dele, porque parecia que dono anterior tinha deixado lá todas as suas tralhas. Eu apareci como prometido, e só meia hora depois é que ele apareceu. Ele entregou-me a chave e ia-se embora até que eu o chamei e perguntei-lhe se ele não vinha.
-Tenho de ir trabalhar…-respondeu ele muito rápido.
E antes que eu pudesse refilar com ele, já tinha desaparecido. Muito contrariado fui limpar a casa dele. Mal abri a porta um cheiro nauseabundo abateu-se sobre mim, e vi que o chão estava cheio de sacos pretos cheios de lixo. Passei a próxima hora a levar sacos do lixo do 4 andar para o caixote do lixo do apartamento, e ainda por cima o maldito elevador não funcionava. Estafado deitei-me na única divisão para além da casa-de-banho. Reparei que de uma trave de madeira do tecto pendia a ponta de uma corda cortada, cansado como estava, pensei:
-Daqui a um bocado tiro-a…
Sem reparar tinha adormecido. Já era de noite quando acordei.
Mas mal abri os olhos tive uma visão peculiar. Vi as plantas de uns pés a poucos centímetros de distância da minha cara no meio do ar. Os ditos pés estavam exactamente por baixo da corda. Foi então que me apercebi…
ELE ESTAVA A OLHAR PARA MIM…
No mês passado, uma das pessoas mais forretas neste mundo, que por acaso é o meu irmão, comprou um pequeno apartamento nos subúrbios da nossa terra natal. Era um mini-apartamento em que o quarto, sala e cozinha eram uma só divisão. Desde que o comprou ele andava muito irrequieto como se algo o preocupasse. Então ele decidiu pedir-me ajuda para limpar a casa dele, porque parecia que dono anterior tinha deixado lá todas as suas tralhas. Eu apareci como prometido, e só meia hora depois é que ele apareceu. Ele entregou-me a chave e ia-se embora até que eu o chamei e perguntei-lhe se ele não vinha.
-Tenho de ir trabalhar…-respondeu ele muito rápido.
E antes que eu pudesse refilar com ele, já tinha desaparecido. Muito contrariado fui limpar a casa dele. Mal abri a porta um cheiro nauseabundo abateu-se sobre mim, e vi que o chão estava cheio de sacos pretos cheios de lixo. Passei a próxima hora a levar sacos do lixo do 4 andar para o caixote do lixo do apartamento, e ainda por cima o maldito elevador não funcionava. Estafado deitei-me na única divisão para além da casa-de-banho. Reparei que de uma trave de madeira do tecto pendia a ponta de uma corda cortada, cansado como estava, pensei:
-Daqui a um bocado tiro-a…
Sem reparar tinha adormecido. Já era de noite quando acordei.
Mas mal abri os olhos tive uma visão peculiar. Vi as plantas de uns pés a poucos centímetros de distância da minha cara no meio do ar. Os ditos pés estavam exactamente por baixo da corda. Foi então que me apercebi…
ELE ESTAVA A OLHAR PARA MIM…
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