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Friday, March 30, 2012

Saturday, August 13, 2011

Da cave

Depois de tudo o que vivemos talvez não exista mais nada. Lembro-me de uma cela sombria e de um frio nas costas. Depois de tudo o que vimos talvez não exista mais nada. Lá longe rodopia uma maré estranha e concisa. Entre o passado e o presente, entre a dor e a solidão. E de nós nenhum voltará. Nenhum voltará com asas se nelas se entorpecem os dias até que definhem por si mesmos. Do branco da alma nenhuma pureza.
Quando me tiraram da cela escura dos dias saí sem mim. Deixei o corpo e a razão que pensava ter. Nas paredes escuras de um negro comum esqueci-me de ti. Esqueci-me dos olhos e da cara e entre nós só as tuas mãos. Só a tua vontade de elevar algumas coisa que na verdade só diminui quem vê. Quem espera e quem sonha.
Quando o vento chegou eu já não podia avançar. Quando o vento chegou e me empurrou para um mundo eu já não era ninguém. E o vento soprava. Corria-me no corpo, arrepiava-me por dentro. Mas eu era uma estátua. Eu estava vazio de mim. Quando a maré baixava não havia mais nada senão essa cela sombria de onde conto os meus dias. Onde os escrevo com uma ternura perdida, onde desenho os sonhos que nunca terei. São pinturas rupestres dos dias que não vi mas podiam ser meus.
Nas paredes desenho as caras, os braços, os amores que nunca tive. Nas paredes de uma cela desenho a preto e branco as histórias que afinal não pude viver. Tenho no meu corpo um velho que definha, tenho em mim a criança que chora sem que tenha vontade de o fazer. Quando a maré sobe já não é mais dia. Quando a maré sobe porque nos puxa o tempo já não somos ninguém. E talvez aí… num planalto sedento de tudo possamos ver enfim, como nos afogaram no mar.
E de lá, desse fim de todas as coisas, dessa solidão que se perde em nós quando nos perdemos de tudo podemos enfim ver, que nós, que nunca vimos o mar fazíamos afinal parte das ondas. Fazíamos parte de um sítio mais eterno que o fugaz horizonte. Não sabíamos da cela como o mundo era mais vasto, não sabíamos de lá como em nós viviam os sonhos que nunca pudemos ter.

Tuesday, May 17, 2011

Quem de vós sabe amar?

Quem de vós sabe amar?
Como se o amor fosse fossa escura, humilde no seu terror. Como se fosse medo e esperança na perna que não fala, no braço que não cresce, na boca que não come.
E terror.
Terror a olhos vistos na vida crua: desespero. Desespero entre a pele e a alma. Desespero cimentado na pele sombria já de morte, sombria de vida, de esperança que não tem.

Quem de vós sabe amar? Nestes tempos difíceis, quem de vós, pode e sabe iluminar?

In O ranger do mundo Novembro / 2008

Monday, April 25, 2011

Saturday, April 10, 2010

o amor ao contrário

1

Vieste com sonhos. Por isso te fechei a porta. Porque com sonhos não faço nada. Vieste com sonhos e irascível pediste-me que mudasse. Disseste: Dá-me a mão. Disseste: Fica comigo até ao amanhecer que a noite não me assusta. Ainda que esteja fria. Se estiveres comigo não tenho medo.

Eu dei-te a mão. Sem medo esperei que viesses até mim. Que na minha pele te pudesse encontrar. A noite estava longe, cada vez mais longe e algo em mim sussurrava em segredo. Algo em mim me relembrava como não me podias amar.


2

As estrelas estavam altas quando me deste a mão. Tinhas um corpo gentil mas não te sentia de verdade. Não soube ver como em ti esvoaçava alguma vontade de voar. Numa praia perdida. Num algures longínquo tocava-te no corpo e tu deixavas. Mas em mim nenhuns olhos existiam. Só vontade. Só desejo.



3

De voar pela noite. Pensei que pela tua mão o poderia fazer mas em mim nada o gritava em mim nenhumas asas se criavam ao teu toque. Pensei que por dentro me enternecesse. Pensei que em mim algo sonharia em nós. Em nós, como se fossemos um. Como se por fim fossemos um.



4

Lembro-me das tuas ancas. Lembro-me do toque da tua pele na minha. Lá longe ouvia vozes. Por vezes vagueavam em mim. Era uma noite de Agosto. E enquanto fingia fazer amor contigo tocava-te no corpo. Sem que as vozes me ocultassem uma verdade. Sem que o amor chegasse quando nunca eu o esperei.



5

Quando me tocaste foi como se algo caísse em mim. E mesmo assim pelas ondas do mar deixei-me ir. Mesmo assim deixei-me levar. Esperava o antídoto da solidão. Esperava o amor e quiçá; alguma paixão. Quando te olhei os olhos vislumbrei o vazio do meu passado. Um vazio de ti; de toda a gente. Numa praia deserta de verão fingíamos amar.


6

Longe de mim querer que ficasses para sempre. Só não queria estar sozinho. Queria encontrar a liberdade e não me ocorreu encontrá-la senão na tua pele. Quando me perguntaste se te amava: estava distraído em mim.



7

Amas-me?


8

[…]



9

Lembro-me da minha voz. Lembro-me do silêncio que se seguiu. Lembro-me de como fingimos os dois que eu nunca tinha falado. Como se o silêncio fosse imenso em nós, como se nada existisse senão os corpos, senão as ondas do mar bem perto e o mundo lá longe.



10

Amas-me? – disseste. E eu calei-me. Calei-me porque não podia falar. Lá longe as ondas e apenas isso. fingi não existir. Fingi não saber pensar. Até que por fim sussurrei em mim sem que pudesses ouvir. Vezes sem conta sussurrei. E quando te olhei soube ver como em ti sussurravas também:

11

Desculpa.

12

Desculpa.

Monday, October 12, 2009

Desculpa. Mas esta noite não quero mentir. Finges que vens da guerra mas não vens. Entras em casa pousas o copo e deitas-te na cama.
Não comes porque já não sentes o corpo e não perguntas pelo teu filho porque não te lembras de ter um. E entre gritos e berros, porque não sabes susurrar, sentas-te na cama e apregoas mundos que nenhum de nós viu. Onde apenas a tua rudeza, o teu sobejo pensamento pode entrar.
Na cama o teu filho chora e ainda assim não o podes ouvir. A cada pingo desta última esperança, que se escorre de mim, incha o teu orgulho.
Hoje sou eu quem sai da cama mas não reparas. Deito-me no sofá com o cobertor por cima e tu ficas sentado na cama aos berros com a parede. E ao olhá-la vês-te no fundo de um copo como um herói quando na verdade te sentes um traidor...
Quem sou eu para te julgar? E como o posso fazer, se todas as noites me preocupo somente com ensurdecer os teus berros, para que na voz da nossa criança eles não possam mais crescer. Quando todos os dias saio de casa para lhe dar de comer, e quando volto? Quando volto não estás, não sei de ti... mas já não me interessa saber. Porque sempre que chegas, chegas assim... e isto que trazes contigo nao é o homem que amei.
Se te molda a razão talvez não a tenhas. Se te destrói em ti... talvez não te tenhas também...
Do lado de lá,ele chora. Um choro ensurdecido pelos teus berros e ninguém o ouve- só eu. Só eu porque o ouço por dentro, enquanto choro também.
No dia seguinte levantamo-nos todos e ao sair de casa enquanto lhe pego na mão penso em uma outra casa que hei-de ter. Quando o meu pé toca na calçada levo a mão à boca, por entre o cansaço esqueci-me de como dói a tua mão na minha cara.
Mas sempre que acordo, dói-me mais a tua voz, a tua irresponsabilidade e a forma como desprezas o que um dia amaste.
Amanhã não vou voltar. Porque já não te sei perdoar. Amanhã vais ficar sozinho e eu quero que fiques assim. Porque só assim podes saber como dói. Como é a dor quando até hoje não a soubeste sentir.
Não. Por mais que queira, não te posso julgar. Mas julgo que não posso ficar.

No dia seguinte ele chegou, como habitualmente fazia cambaleou pela entrada. Caiu no sofá e berrou. Não sabemos ao certo porque berrava, mas não importava saber porque nele nada existia senão isso. Senão a raiva de um homem que já não sabe amar. Durante toda a noite berrou como se não estivesse sozinho. Os vizinhos por entre os berros habituais não souberam que nessa noite ele não bateu em ninguém.
Na manhã seguinte: O silêncio de uma casa vazia. O silêncio de um armário sem roupa, de uma cama sem gente e um homem... um homem que encolhido sobre si chorava. E por vezes ao abrir os olhos ele levantava a cabeça e esperava que tudo tivesse mudado mas o armário continuava vazio e o silêncio... O silêncio lembrava-lhe o passado.

Thursday, September 17, 2009

O copo.

O copo ali. E eu sentia falta de vida, falta de amor. O copo ali calado e eu a olhar, porque enquanto não o toco não vivo e eu preciso de viver. Tu sabes que eu preciso de viver não sabes?
A casa caía-me em cima de velha e rabugenta, a sujidade acumulava-se-me no corpo e nas paredes deste antro a que chamo casa. Deste canto de escuridão onde me escondo para fugir aos homens. Quem sabe de mim senão eu? Quem sabe? Ninguém. Ninguém sabe de mim senão eu.
O copo ali.
E se ele vier de vez, enterro-me aqui sobre o meu desprezo pelos homens. E nada me pode valer senão o amor. Mas o amor não vem... e eu fujo!
O amor não vem e eu fujo. Mas existe sempre um copo. Existe uma vontade de esquecer os pés e as mãos e a vontade. Principalmente a vontade. A vontade regenera-se mesmo quando o corpo se sente incapaz de sonhar ou fazer. Ou será desejo?
Um copo. Só mais um. E cada vez que o persigo - o sorriso- ...ele cada vez mais longe e o copo cada vez mais perto, cada dia mais em mim e ainda assim estou sozinho. Terrivelmente sozinho.
A cadeira era velha... rangia, abanava. A cadeira não era nenhuma poltrona e no entanto eu fingia que era deus.

Saturday, July 18, 2009

Sou só eu.

-Sou só eu.
O caixão pesava sobre aquele chão sem dono, sem raiz. Mas pesava mais a dor. A indiferença do mundo a esta voz que se calava.

Foram 4 mãos desconhecidas as que carregaram aquele invólucro final. Indigno de tudo o que fomos em vida, ou o que não fomos. É lá que morre a esperança e fica guardada. Fica perdida.

Foram 2 mãos desconhecidas as que te lavaram o corpo pela última vez, as que o vestiram.
Aquele corpo que só eu amei. Aquele corpo que só a mim foi dado a conhecer. Tu não exististe. Não está ninguém aqui! O cemitério está deserto, e eu estou deserto de ti.

Ecoam-me os passos ainda na cabeça. Não me liberto. Sinto-me só…

Abriram um buraco na terra e puseram-te lá. Dizem que pertences. Que é lá o teu lugar. O teu lugar é comigo! O que faço agora?

Morte…

-Permite-me umas últimas palavras?

Chove. Chove sobre ti. Sobre o que já não és. E chovem palavras de uma boca que nunca soube quem és. E ninguém está a ouvir! Ninguém está a ouvir…
Eu ouço! Eu estou aqui!
O que faço agora?...

Morte…- ecoa em mim.

-Permite-me umas últimas palavras?
- Sim.

E agora? O que faço? …eu não sei estar aqui.

Continua o tempo a passar, como uma guilhotina, o tempo sobre mim. Ecoas em mim como um engano, que me fala do escuro que diz que ainda existes para lá da minha pele.
O vento. A chuva. Ouço o descer do caixão. E tu já não estás aqui… o roçar das cordas, e pousam-te na terra, como se nada fosse. Deixam-te ali…

São as últimas palavras: Não as quero ouvir.

Thursday, May 28, 2009


Armazenar luz e solidão nos recantos mais fugazes do corpo. E o silêncio, o silêncio como os ossos quando não rangem. Quando não nos sabem dizer que o tempo nos interpela, que nos pede que a vida seja mais… e mesmo assim nos ordena que não sejamos ninguém.

Quando a mão pousou sobre o corpo, nada mais se pode ouvir, porque tudo o que ela soube fazer; foi tocar:

A luz no escuro… a luz que não penetra na escuridão, quando a escuridão me preenche como um todo e mesmo assim eu tento. Mesmo assim eu grito como se tivesse voz!

A mão que fala sem que lhe dêem voz e percorre o corpo. A voz que preenche as curvas feitas de vazio e pele. As curvas que antes sabiam falar…

Quando dentro de mim nada mais pertence; só aí poderei ser livre de mim. Só aí ao sucumbir ao deserto de um outro corpo que não seja o meu.
O joelho que se entrelaça na perna… um corpo que se encosta ao meu.

Amanhã não posso dormir tanto. Amanhã tenho que trabalhar mais...

Uma mão que não sabe quem sou e mesmo assim rouba de mim o que lhe deleita a voz. A voz que não tem.

Tenho as compras… tenho as contas para pagar…
Um boca que me beija a pele, uma pele que se arrepia na minha.

E mesmo assim não sou tua… amanhã talvez eu possa esquecer. Talvez eu me esqueça de como me preenche o calendário. De como se afogam os dias em mim sem que eu os saiba viver.
Um corpo sobre o meu, e apenas o peso. Uma voz que me pede e fala e diz;
...


... e eu não sei ouvir.

Amanhã talvez não doa tanto. Talvez se eu tentar… se continuar a tentar…

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