Friday, March 30, 2012
Thursday, January 12, 2012
Excerto de Um Retrato de Uma Confissão
Saí da cama para te ir buscar a uma hora inconveniente e absurda, sem razão egoísta. Vesti-me, depois de me ter preparado para dormir, e saí para o frio. Saí porque te queria proteger. Queria abdicar da minha segurança para te dar alguma extra. Queria-te bem, queria que nada te acontecesse, e queria estar lá para o caso de algo acontecer, que me acontecesse a mim.
Pois olha, vai para a puta que te pariu. Se soubesse o que sei hoje, tinha-te deixado lá a morrer ao frio - melhor, tinha-te dito que iria e tinha-te deixado à minha espera, para que sentisses dentro de ti aquele calor de esperança, de não tarda estarei bem, para que ele fosse esmorecendo aos poucos, até só te restarem cantos frios da alma. Devias ter lá ficado, sentada no passeio, vendo as pessoas indo para casa, mais ao menos bem, mas para casa ainda assim. Doía-te a cabeça? Não tivesses ido. Tivesses ficado em casa, a estudar, ou comigo.
Queres estar comigo agora? Vai-te foder. Só que não to consigo dizer. Ouço a tua voz e tudo o que consigo fazer é anuir sabendo perfeitamente que o que deveria fazer era precisamente mandar-te foder, cobrar-te também por aquilo que me cobras. Anuo e vou, vou-te buscar, um quarto de hora estou aí.
E não sabias, mas não deveria ter ido, enfrentei obstáculos e pessoas indesejáveis, enfrentei vergonha e embaraço, tu não o merecendo. Mas pés à estrada, estás à minha espera. Pés à estrada... pés à estrada. Não tenho razão absolutamente nenhuma para isso, mas toca a meter os pés à estrada! Nem sequer mo pediste, disseste-me inclusivé que não fosse, mas pés à estrada e lá vou eu! Credo, como eu te odeio. Soubesse o que sei hoje... Na verdade, já sabia. Na verdade... Eu não queria ver. Mas não tendo reconhecido o devido... pés à estrada.
Pois olha, vai para a puta que te pariu. Se soubesse o que sei hoje, tinha-te deixado lá a morrer ao frio - melhor, tinha-te dito que iria e tinha-te deixado à minha espera, para que sentisses dentro de ti aquele calor de esperança, de não tarda estarei bem, para que ele fosse esmorecendo aos poucos, até só te restarem cantos frios da alma. Devias ter lá ficado, sentada no passeio, vendo as pessoas indo para casa, mais ao menos bem, mas para casa ainda assim. Doía-te a cabeça? Não tivesses ido. Tivesses ficado em casa, a estudar, ou comigo.
Queres estar comigo agora? Vai-te foder. Só que não to consigo dizer. Ouço a tua voz e tudo o que consigo fazer é anuir sabendo perfeitamente que o que deveria fazer era precisamente mandar-te foder, cobrar-te também por aquilo que me cobras. Anuo e vou, vou-te buscar, um quarto de hora estou aí.
E não sabias, mas não deveria ter ido, enfrentei obstáculos e pessoas indesejáveis, enfrentei vergonha e embaraço, tu não o merecendo. Mas pés à estrada, estás à minha espera. Pés à estrada... pés à estrada. Não tenho razão absolutamente nenhuma para isso, mas toca a meter os pés à estrada! Nem sequer mo pediste, disseste-me inclusivé que não fosse, mas pés à estrada e lá vou eu! Credo, como eu te odeio. Soubesse o que sei hoje... Na verdade, já sabia. Na verdade... Eu não queria ver. Mas não tendo reconhecido o devido... pés à estrada.
Thursday, December 8, 2011
Carta a Um Fantasma
Não sei quem és, e ainda assim, conheço-te, talvez, melhor do que gostaria de conhecer... Conheço-te de dentro para fora. Porque te fiz a partir de mim.
Quero agradecer a tua inexistência - dou graças por não existires. Porquê? Porque materializarias tudo o que eu desejo em alguém, e se existires, quem me garante que serás perfeição para mim? Hm? Quem é que me diz o futuro? Prefiro ir coleccionando pedaços de ti ao longo do tempo.
Acho que já tenho alguns, sabes? Acho que já encontrei alguns pedaços da tua alma, mundo fora, e guardei-os para mim; sou eu quem os tem. Não sei se já o sabias... não vieste à minha procura...
Mas hoje... esta noite... queria que estivesses comigo. Agora. Preciso de ti, preciso de braços, preciso de peito, preciso de pele... e de coração. E alma, preciso de alma. Mas é como te digo: se não existes, como é que eu te posso desejar, e querer perto? Essa é outra pergunta... Como é que posso querer a alguém... que existe dentro de mim apenas?
É por isso que te escrevo. Falar-te, escrever-te... comunicar contigo... é como se te criasse, é como se existisses no mundo, só estando longe. Com esta carta a um fantasma faço de ti carne e osso, pele e órgãos, realizo-te, crio-te - a partir do nada. Por isso, e porque agora existes, peço-te, atende ao meu pedido, volta.
Vou estar à tua espera. Já sei como és, conheço-te... Vais-te fingir de desinteresse, vais dizer "agora não posso... estou com demasiadas ocupações", vais-me gozar, só para veres a minha cara vestida de espanto falso quando realmente te vir chegando... Porque eu sei que te dá um gozo enorme excederes as expectativas que achas que me impuseste... Pois olha, estou esperando. Não demores muito.
Quero agradecer a tua inexistência - dou graças por não existires. Porquê? Porque materializarias tudo o que eu desejo em alguém, e se existires, quem me garante que serás perfeição para mim? Hm? Quem é que me diz o futuro? Prefiro ir coleccionando pedaços de ti ao longo do tempo.
Acho que já tenho alguns, sabes? Acho que já encontrei alguns pedaços da tua alma, mundo fora, e guardei-os para mim; sou eu quem os tem. Não sei se já o sabias... não vieste à minha procura...
Mas hoje... esta noite... queria que estivesses comigo. Agora. Preciso de ti, preciso de braços, preciso de peito, preciso de pele... e de coração. E alma, preciso de alma. Mas é como te digo: se não existes, como é que eu te posso desejar, e querer perto? Essa é outra pergunta... Como é que posso querer a alguém... que existe dentro de mim apenas?
É por isso que te escrevo. Falar-te, escrever-te... comunicar contigo... é como se te criasse, é como se existisses no mundo, só estando longe. Com esta carta a um fantasma faço de ti carne e osso, pele e órgãos, realizo-te, crio-te - a partir do nada. Por isso, e porque agora existes, peço-te, atende ao meu pedido, volta.
Vou estar à tua espera. Já sei como és, conheço-te... Vais-te fingir de desinteresse, vais dizer "agora não posso... estou com demasiadas ocupações", vais-me gozar, só para veres a minha cara vestida de espanto falso quando realmente te vir chegando... Porque eu sei que te dá um gozo enorme excederes as expectativas que achas que me impuseste... Pois olha, estou esperando. Não demores muito.
Tuesday, November 8, 2011
Quando a Razão Não Chega
Para que nos possamos expressar o mais fielmente possível, que é como quem diz pintarmos com letras a nossa alma, precisamos por vezes de um impulso, e não o encontrando em nós, atrás da confusão cromática de emoções que de nós se querem evadir, temos que o tentar encontrar nas palavras de outros.
Sonho com uma rapariga: uma moça baixa, de cabelos simples, escuros, caídos livremente sobre as lâminas dos seus ombros. Deveria aparecer à minha porta sorrindo, do nada. Deveria agora bater à porta entre nós e entrar, para que eu descobrisse que ela não passa da namorada do meu colega de quarto.
Não seria uma peça marcadamente diferente das outras que compõem o mosaico da minha vida. Caberia nele perfeitamente. Entrasse uma moça na minha vida haveria nela algo, descoberto sem querer, que faria de um nós uma tragédia.
E foi assim que me apaixonei pela minha prima. O grande perigo das famílias zangadas que cortam contacto materializou-se naquele supermercado. Ela não tem cabelo escuro, mas será essa a única diferença entre ela e a moça que muitas vezes, vezes demais, entra nos meus sonhos conscientes. Já a vi entrar pela sala de aula adentro, pelo meu quarto adentro, sentar-se ao meu lado no autocarro, atender-me no hipermercado, mas nunca a vi entrando pela casa da minha avó adentro, como decerto alguma vez fez. Acontece muitas vezes na vida, calculamos de mil maneiras diferentes um certo cenário, e ele sai sempre ao contrário.
Quando soube, não soube o que sentir. Senti só as pernas fugirem-me para longe, um formigueiro no cérebro e o coração batendo forte em descrédito. Mas a verdade estava aí, ela em vez da moça de cabelos escuros, e eu que me amanhe em aceitá-la, a verdade está-se a cagar para quem ela é e o que faz aos outros.
Ela não sabe - mas desconfia, acho eu. E o meu nervosismo ao pé dela só lhe corrobora as desconfianças. Por isso, afastei-me um bocado. E isso só lhe confirmou as desconfianças já de si corroboradas, certamente. Não sei o que fazer, dói-me a alma de se sentir bem o coração.
Corre-lhe sangue do meu nas veias. Não sei o que fazer, não sei como sair deste círculo. Já a desejei, e agora nego a mim mesmo que ainda a desejo.
Não sei o que faça. Divido-me entre a inerência e inevitabilidade do nojo e a alegria. Um parentesco, corrompendo toda a pureza deste mais nobre dos sentimentos, esta paixão incorpórea. É razão? Não?
Foda-se. Estou fodido.
Sonho com uma rapariga: uma moça baixa, de cabelos simples, escuros, caídos livremente sobre as lâminas dos seus ombros. Deveria aparecer à minha porta sorrindo, do nada. Deveria agora bater à porta entre nós e entrar, para que eu descobrisse que ela não passa da namorada do meu colega de quarto.
Não seria uma peça marcadamente diferente das outras que compõem o mosaico da minha vida. Caberia nele perfeitamente. Entrasse uma moça na minha vida haveria nela algo, descoberto sem querer, que faria de um nós uma tragédia.
E foi assim que me apaixonei pela minha prima. O grande perigo das famílias zangadas que cortam contacto materializou-se naquele supermercado. Ela não tem cabelo escuro, mas será essa a única diferença entre ela e a moça que muitas vezes, vezes demais, entra nos meus sonhos conscientes. Já a vi entrar pela sala de aula adentro, pelo meu quarto adentro, sentar-se ao meu lado no autocarro, atender-me no hipermercado, mas nunca a vi entrando pela casa da minha avó adentro, como decerto alguma vez fez. Acontece muitas vezes na vida, calculamos de mil maneiras diferentes um certo cenário, e ele sai sempre ao contrário.
Quando soube, não soube o que sentir. Senti só as pernas fugirem-me para longe, um formigueiro no cérebro e o coração batendo forte em descrédito. Mas a verdade estava aí, ela em vez da moça de cabelos escuros, e eu que me amanhe em aceitá-la, a verdade está-se a cagar para quem ela é e o que faz aos outros.
Ela não sabe - mas desconfia, acho eu. E o meu nervosismo ao pé dela só lhe corrobora as desconfianças. Por isso, afastei-me um bocado. E isso só lhe confirmou as desconfianças já de si corroboradas, certamente. Não sei o que fazer, dói-me a alma de se sentir bem o coração.
Corre-lhe sangue do meu nas veias. Não sei o que fazer, não sei como sair deste círculo. Já a desejei, e agora nego a mim mesmo que ainda a desejo.
Não sei o que faça. Divido-me entre a inerência e inevitabilidade do nojo e a alegria. Um parentesco, corrompendo toda a pureza deste mais nobre dos sentimentos, esta paixão incorpórea. É razão? Não?
Foda-se. Estou fodido.
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