Não sei quem és, e ainda assim, conheço-te, talvez, melhor do que gostaria de conhecer... Conheço-te de dentro para fora. Porque te fiz a partir de mim.
Quero agradecer a tua inexistência - dou graças por não existires. Porquê? Porque materializarias tudo o que eu desejo em alguém, e se existires, quem me garante que serás perfeição para mim? Hm? Quem é que me diz o futuro? Prefiro ir coleccionando pedaços de ti ao longo do tempo.
Acho que já tenho alguns, sabes? Acho que já encontrei alguns pedaços da tua alma, mundo fora, e guardei-os para mim; sou eu quem os tem. Não sei se já o sabias... não vieste à minha procura...
Mas hoje... esta noite... queria que estivesses comigo. Agora. Preciso de ti, preciso de braços, preciso de peito, preciso de pele... e de coração. E alma, preciso de alma. Mas é como te digo: se não existes, como é que eu te posso desejar, e querer perto? Essa é outra pergunta... Como é que posso querer a alguém... que existe dentro de mim apenas?
É por isso que te escrevo. Falar-te, escrever-te... comunicar contigo... é como se te criasse, é como se existisses no mundo, só estando longe. Com esta carta a um fantasma faço de ti carne e osso, pele e órgãos, realizo-te, crio-te - a partir do nada. Por isso, e porque agora existes, peço-te, atende ao meu pedido, volta.
Vou estar à tua espera. Já sei como és, conheço-te... Vais-te fingir de desinteresse, vais dizer "agora não posso... estou com demasiadas ocupações", vais-me gozar, só para veres a minha cara vestida de espanto falso quando realmente te vir chegando... Porque eu sei que te dá um gozo enorme excederes as expectativas que achas que me impuseste... Pois olha, estou esperando. Não demores muito.
Thursday, December 8, 2011
Tuesday, November 8, 2011
Quando a Razão Não Chega
Para que nos possamos expressar o mais fielmente possível, que é como quem diz pintarmos com letras a nossa alma, precisamos por vezes de um impulso, e não o encontrando em nós, atrás da confusão cromática de emoções que de nós se querem evadir, temos que o tentar encontrar nas palavras de outros.
Sonho com uma rapariga: uma moça baixa, de cabelos simples, escuros, caídos livremente sobre as lâminas dos seus ombros. Deveria aparecer à minha porta sorrindo, do nada. Deveria agora bater à porta entre nós e entrar, para que eu descobrisse que ela não passa da namorada do meu colega de quarto.
Não seria uma peça marcadamente diferente das outras que compõem o mosaico da minha vida. Caberia nele perfeitamente. Entrasse uma moça na minha vida haveria nela algo, descoberto sem querer, que faria de um nós uma tragédia.
E foi assim que me apaixonei pela minha prima. O grande perigo das famílias zangadas que cortam contacto materializou-se naquele supermercado. Ela não tem cabelo escuro, mas será essa a única diferença entre ela e a moça que muitas vezes, vezes demais, entra nos meus sonhos conscientes. Já a vi entrar pela sala de aula adentro, pelo meu quarto adentro, sentar-se ao meu lado no autocarro, atender-me no hipermercado, mas nunca a vi entrando pela casa da minha avó adentro, como decerto alguma vez fez. Acontece muitas vezes na vida, calculamos de mil maneiras diferentes um certo cenário, e ele sai sempre ao contrário.
Quando soube, não soube o que sentir. Senti só as pernas fugirem-me para longe, um formigueiro no cérebro e o coração batendo forte em descrédito. Mas a verdade estava aí, ela em vez da moça de cabelos escuros, e eu que me amanhe em aceitá-la, a verdade está-se a cagar para quem ela é e o que faz aos outros.
Ela não sabe - mas desconfia, acho eu. E o meu nervosismo ao pé dela só lhe corrobora as desconfianças. Por isso, afastei-me um bocado. E isso só lhe confirmou as desconfianças já de si corroboradas, certamente. Não sei o que fazer, dói-me a alma de se sentir bem o coração.
Corre-lhe sangue do meu nas veias. Não sei o que fazer, não sei como sair deste círculo. Já a desejei, e agora nego a mim mesmo que ainda a desejo.
Não sei o que faça. Divido-me entre a inerência e inevitabilidade do nojo e a alegria. Um parentesco, corrompendo toda a pureza deste mais nobre dos sentimentos, esta paixão incorpórea. É razão? Não?
Foda-se. Estou fodido.
Sonho com uma rapariga: uma moça baixa, de cabelos simples, escuros, caídos livremente sobre as lâminas dos seus ombros. Deveria aparecer à minha porta sorrindo, do nada. Deveria agora bater à porta entre nós e entrar, para que eu descobrisse que ela não passa da namorada do meu colega de quarto.
Não seria uma peça marcadamente diferente das outras que compõem o mosaico da minha vida. Caberia nele perfeitamente. Entrasse uma moça na minha vida haveria nela algo, descoberto sem querer, que faria de um nós uma tragédia.
E foi assim que me apaixonei pela minha prima. O grande perigo das famílias zangadas que cortam contacto materializou-se naquele supermercado. Ela não tem cabelo escuro, mas será essa a única diferença entre ela e a moça que muitas vezes, vezes demais, entra nos meus sonhos conscientes. Já a vi entrar pela sala de aula adentro, pelo meu quarto adentro, sentar-se ao meu lado no autocarro, atender-me no hipermercado, mas nunca a vi entrando pela casa da minha avó adentro, como decerto alguma vez fez. Acontece muitas vezes na vida, calculamos de mil maneiras diferentes um certo cenário, e ele sai sempre ao contrário.
Quando soube, não soube o que sentir. Senti só as pernas fugirem-me para longe, um formigueiro no cérebro e o coração batendo forte em descrédito. Mas a verdade estava aí, ela em vez da moça de cabelos escuros, e eu que me amanhe em aceitá-la, a verdade está-se a cagar para quem ela é e o que faz aos outros.
Ela não sabe - mas desconfia, acho eu. E o meu nervosismo ao pé dela só lhe corrobora as desconfianças. Por isso, afastei-me um bocado. E isso só lhe confirmou as desconfianças já de si corroboradas, certamente. Não sei o que fazer, dói-me a alma de se sentir bem o coração.
Corre-lhe sangue do meu nas veias. Não sei o que fazer, não sei como sair deste círculo. Já a desejei, e agora nego a mim mesmo que ainda a desejo.
Não sei o que faça. Divido-me entre a inerência e inevitabilidade do nojo e a alegria. Um parentesco, corrompendo toda a pureza deste mais nobre dos sentimentos, esta paixão incorpórea. É razão? Não?
Foda-se. Estou fodido.
Wednesday, October 26, 2011
Monólogo sobre estar farto
É sem querer que escrevo num papel em branco, esperando este vãmente que eu o vá a preencher. Está com pouca sorte, e com pouca sorte tem estado, que não me apetece encher o papel com o meu vazio. Tem-se escondido, esse ruído cuja origem sempre se me escapa, esse oco sentido... Está onde não o encontro, talvez permeio da desarrumação do meu estado de espírito, debaixo das ruínas da alma que sinto não me pertencer... Sempre que vou à procura dele, lá se foi, chama por mim sei lá donde, espera-me, mas quando chego para o olhar nas órbitas corre a esconder-se, e sem ele não há palavras que inundem papel que delas precise. Burro, nabiço de hortas desertadas, volta, anda cá, preenche-me de ti, que contigo sou maior do que quando me sinto cheio.
De algo demasiado é que saem estas palavras desimportadas da linguagem. É demais dentro de mim, e demais o meu desconhecimento desta demasia, escorrem-se ambos de mim em monólogo para audiências externas e internas, correm a aliviarem de mim o fardo que é carregar sozinho um peso que é para partilhar comigo mesmo se os outros não estão disponíveis ou queridos. Correm porque de faca em punho os expulso de mim, de bom grado cá ficavam, morrinhando nos cantos mais inexplorados da alma que sendo minha com eles partilho. Mas não pagando renda, rua, vadios, ide-vos! Pelas palavras bazai daqui, deixai-vos do beatério sobre o meu eu mais profundo, pelas palavras vos expurgo d'i.
Já estou melhor. Até daqui a um bocado.
De algo demasiado é que saem estas palavras desimportadas da linguagem. É demais dentro de mim, e demais o meu desconhecimento desta demasia, escorrem-se ambos de mim em monólogo para audiências externas e internas, correm a aliviarem de mim o fardo que é carregar sozinho um peso que é para partilhar comigo mesmo se os outros não estão disponíveis ou queridos. Correm porque de faca em punho os expulso de mim, de bom grado cá ficavam, morrinhando nos cantos mais inexplorados da alma que sendo minha com eles partilho. Mas não pagando renda, rua, vadios, ide-vos! Pelas palavras bazai daqui, deixai-vos do beatério sobre o meu eu mais profundo, pelas palavras vos expurgo d'i.
Já estou melhor. Até daqui a um bocado.
Thursday, August 25, 2011
Violoncelos e Sacos de Cimento
Carregar violoncelos e sacos de cimento ao ombro. Em vez de folgar, de descansar e repousar do diário martírio da sucessão de sacos de cimento, o meu ombro esquerdo não tem remédio, e hoje, de violoncelo ao ombro, vou a repetir o ritual. Queixa-se quando sente o baque daquele corpo enorme de madeira na pele, alivia um pouco, mas depois, à medida que o vai carregando, vai gemendo mais dentro da carne. Range. Tresloucado, diz ao cérebro que não aguenta mais. E pouso-o. É a vez do ombro direito.
Oupa! Aqui vai! Ora... vamos lá...! E trôpegos sob o peso extra meus pés me levam rua fora, empunhando um violoncelo como se de uma espingarda se tratasse, daquelas que se viam passeando avenida fora, vomitando um cravo num abril do passado. As pessoas olham quando passa o gigante, castanho, imponente. Apesar dos queixumes que já sinto do ombro, sinto-me bem com a atenção. E para servir a dois propósitos, baixo o instrumento, sento-me na mureta da avenida e, com aquele corpo entre pernas, armado de um arco, começo a disparar flechas.
Uma senhora atarefada que passava mesmo à minha frente, desapercebida de mim, pára mal ouve a primeira nota. Prolongo-a, lenta, melodiosa, bela. A senhora pousa o saco das compras, já lhe doerão os dedos, pára, escuta e olha. Suspendo a nota, e no momento certo, atiro com a segunda e a terceira, já não tão lentas... mas ainda assim, quero primeiro chamar à atenção. Só depois inicio a música ao ritmo normal.
Não levanto a cabeça uma só vez, olhos trancados no cavalete e no braço, escorrendo cordas abaixo, cordas acima, à medida que arco, de um lado, e dedos, mais acima, modulam o ar à minha volta. O som reverbera por entre o ar, faz vibrar as gotas de oxigénio, sinto-o nos meus ouvidos, sinto-o na pele, sinto-o no suster de respirações de quem me segue o olhar. O meu gigante castanho não se queixa, estará a gostar da atenção tanto ou mais do que eu, já que ele é a estrela que todos observam.
Há quem bote uma moeda para a minha frente, e é então que levanto a cabeça para observar. É um senhor em idade de reforma, mas jovial em aparência e trejeitos. Arrepio caminho por entre a pauta na minha cabeça, mas não deixo de o olhar por uns momentos. Quando acabo a música, palmas soam, entre elas a dele, e é a ele que digo "Meu caro senhor", apanhando do chão a moeda de dois euros, "não quero dinheiro, obrigado. Agradeço-lhe o afecto que representa, mas não quero mesmo dinheiro, não é por isso que toco na rua", parece embasbacado. Recebe o dinheiro de volta e enfia-o no bolso. "Então tocas mais um bocado", e agraciando-o, inicio mais uma melodia.
Atiro com as notas para o ar, como fiz à moeda. Paguem-me com o que lhes dou, com som. Paguem-me com o som das palmasm, que é por isso que ando tanto de violoncelo ao ombro, e se realmente me querem dar algo do mundo, paguem-me uma sandes e uma cerveja. Para que amanhã, depois da tortura que será o resto da viagem de hoje, os meus ombros alimentados se queixem um pouco menos quando começarem, ao raiar do sol, nos sacos de cimento.
Oupa! Aqui vai! Ora... vamos lá...! E trôpegos sob o peso extra meus pés me levam rua fora, empunhando um violoncelo como se de uma espingarda se tratasse, daquelas que se viam passeando avenida fora, vomitando um cravo num abril do passado. As pessoas olham quando passa o gigante, castanho, imponente. Apesar dos queixumes que já sinto do ombro, sinto-me bem com a atenção. E para servir a dois propósitos, baixo o instrumento, sento-me na mureta da avenida e, com aquele corpo entre pernas, armado de um arco, começo a disparar flechas.
Uma senhora atarefada que passava mesmo à minha frente, desapercebida de mim, pára mal ouve a primeira nota. Prolongo-a, lenta, melodiosa, bela. A senhora pousa o saco das compras, já lhe doerão os dedos, pára, escuta e olha. Suspendo a nota, e no momento certo, atiro com a segunda e a terceira, já não tão lentas... mas ainda assim, quero primeiro chamar à atenção. Só depois inicio a música ao ritmo normal.
Não levanto a cabeça uma só vez, olhos trancados no cavalete e no braço, escorrendo cordas abaixo, cordas acima, à medida que arco, de um lado, e dedos, mais acima, modulam o ar à minha volta. O som reverbera por entre o ar, faz vibrar as gotas de oxigénio, sinto-o nos meus ouvidos, sinto-o na pele, sinto-o no suster de respirações de quem me segue o olhar. O meu gigante castanho não se queixa, estará a gostar da atenção tanto ou mais do que eu, já que ele é a estrela que todos observam.
Há quem bote uma moeda para a minha frente, e é então que levanto a cabeça para observar. É um senhor em idade de reforma, mas jovial em aparência e trejeitos. Arrepio caminho por entre a pauta na minha cabeça, mas não deixo de o olhar por uns momentos. Quando acabo a música, palmas soam, entre elas a dele, e é a ele que digo "Meu caro senhor", apanhando do chão a moeda de dois euros, "não quero dinheiro, obrigado. Agradeço-lhe o afecto que representa, mas não quero mesmo dinheiro, não é por isso que toco na rua", parece embasbacado. Recebe o dinheiro de volta e enfia-o no bolso. "Então tocas mais um bocado", e agraciando-o, inicio mais uma melodia.
Atiro com as notas para o ar, como fiz à moeda. Paguem-me com o que lhes dou, com som. Paguem-me com o som das palmasm, que é por isso que ando tanto de violoncelo ao ombro, e se realmente me querem dar algo do mundo, paguem-me uma sandes e uma cerveja. Para que amanhã, depois da tortura que será o resto da viagem de hoje, os meus ombros alimentados se queixem um pouco menos quando começarem, ao raiar do sol, nos sacos de cimento.
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