Ninguém quer saber dos sonhos ou suspiros alheios. Chegou o momento em que ninguém mais quer saber do outros "eus", para além daquilo que é uma constante novidade.
Ainda me pergunto por quê as pessoas continuam a escrever sobre os seus sonhos ou seus suspiros, afinal de contas, quem irá ler?
Escrevemos para nós, pensando que somos constituídos apenas de uma só pessoa que pertence apenas a um só corpo. Até que chega aquele momento em que descofiamos que esta única alma não é tão pequena, transformando-se de pequena para complexa e grande. E as vezes, sendo até difícil de ser carregada dentro deste único corpo. Então, escrevemos através da mesma mão, conversando com as várias almas que parecem existir dentro de nós e por este motivo, escrevemos para nós mesmos. Sendo nós, nunca os mesmos.
Sunday, August 14, 2011
Saturday, August 13, 2011
Da cave
Depois de tudo o que vivemos talvez não exista mais nada. Lembro-me de uma cela sombria e de um frio nas costas. Depois de tudo o que vimos talvez não exista mais nada. Lá longe rodopia uma maré estranha e concisa. Entre o passado e o presente, entre a dor e a solidão. E de nós nenhum voltará. Nenhum voltará com asas se nelas se entorpecem os dias até que definhem por si mesmos. Do branco da alma nenhuma pureza.
Quando me tiraram da cela escura dos dias saí sem mim. Deixei o corpo e a razão que pensava ter. Nas paredes escuras de um negro comum esqueci-me de ti. Esqueci-me dos olhos e da cara e entre nós só as tuas mãos. Só a tua vontade de elevar algumas coisa que na verdade só diminui quem vê. Quem espera e quem sonha.
Quando o vento chegou eu já não podia avançar. Quando o vento chegou e me empurrou para um mundo eu já não era ninguém. E o vento soprava. Corria-me no corpo, arrepiava-me por dentro. Mas eu era uma estátua. Eu estava vazio de mim. Quando a maré baixava não havia mais nada senão essa cela sombria de onde conto os meus dias. Onde os escrevo com uma ternura perdida, onde desenho os sonhos que nunca terei. São pinturas rupestres dos dias que não vi mas podiam ser meus.
Nas paredes desenho as caras, os braços, os amores que nunca tive. Nas paredes de uma cela desenho a preto e branco as histórias que afinal não pude viver. Tenho no meu corpo um velho que definha, tenho em mim a criança que chora sem que tenha vontade de o fazer. Quando a maré sobe já não é mais dia. Quando a maré sobe porque nos puxa o tempo já não somos ninguém. E talvez aí… num planalto sedento de tudo possamos ver enfim, como nos afogaram no mar.
E de lá, desse fim de todas as coisas, dessa solidão que se perde em nós quando nos perdemos de tudo podemos enfim ver, que nós, que nunca vimos o mar fazíamos afinal parte das ondas. Fazíamos parte de um sítio mais eterno que o fugaz horizonte. Não sabíamos da cela como o mundo era mais vasto, não sabíamos de lá como em nós viviam os sonhos que nunca pudemos ter.
Wednesday, August 10, 2011
1. A Guerra
'Mamã, eu também quero lutar' era o desejo de todos, altos e baixos, gordos e magros, feios e bonitos, corajosos e fracos - e os que morreriam e os que não morreriam. Todos queriam empunhar espadas, independentemente da morte.
Todas as semanas era realizado o que os outros chamavam um rito fúnebre, ao Domingo, como de costume. Os meninos viam ser enterrados os corpos dos seus papás, que chegavam no Sábado ainda fora dos caixões, apressada e disfarçadamente envoltos em mantos, sabiamente negros. Caixões não preparados para os que chegaram, mas para os que viriam, alguém, quem, não sabiam. Não sabiam que nomes pôr no mármore, sabiam apenas que havia mármore a ser preparado e caixões a serem envernizados.
Todos os dias havia reunião no adro da igreja para ouvir notícias da guerra. Todos os dias um oficial do governo era enviado pela Cidade para dar as novas, de aldeia em aldeia, do que se passava 'lá fora'. 'Lá fora' era o que diziam, para nos distraír do cá dentro, um reboliço parecido ao da guerra. Um reboliço que se tentava apaziguar, amainar, ao contrário da guerra lá fora. Todos os dias, viemos a saber no fim, isolados de quem nos fora tirado, aprendemos de que morriam uns e iam a morrer outros e queriam ir morrer mais uns ainda por causas mentidas. Mas todos os dias, no fim de missas diárias, rezadas pelas almas dos que partiram, íamos ouvir o que o senhor de fato, fato como nenhum de nós tinha ou sonhava existir, sabia da guerra. O que nós não sabíamos, nem nunca soubemos.
Todos os sábados apertávamos corações e tomates para irmos ouvir morrer amigos e maridos, de se lhes dizer o nome. Eram sentenças passadas pelo senhor de batina, cujo único resultado era ou vida ou morte. Ou morte. Com palavras em maiúscula éramos ceifados das nossas esperanças, ceifados que eram os nossos irmãos pela boca do padre, nossos pais, filhos, enamorados, noivos até, maridos e cunhados, padrastos, padeiros de todos os dias e leiteiros de de vez em quando, e o senhor dos pombos, o porteiro da escola, o senhor doutor da nossa terra, que fora cuidar dos coitados, sará-los daquilo que o que lhes era imposto lhes fazia, ah, e o rapaz do futebol, que tão bem que ele jogava, não morreu mas ficou sem uma perna, e o amigo dele, que o desamparou do outro lado, caíam que nem tordos, os que nos saíam da beira, levados por Alguém, iam voar e vinham cair os corpos à terra que os viu nascer, e que era lei que os visse mortos, porque morrer não podia ver que iam morrer longe, vinham chover as carcaças que ficavam, lembrar-nos que tantas vezes víramos aqueles rostos vivendo em várias dezenas de alturas, vivos, chorando ou rindo, comprazendo-se ou dolendo, não importa, mexiam membros e diziam cousas, eram nossos vizinhos e nossa família, e foram para o estrangeiro morrer, longe de quem lhes queria bem, de quem não queria que fossem, longe do regaço da mãe e do colo da enamorada, longe até da mão dura do pai que tão bem que sabe o raro carinho, iam para o desconhecido, armados com o que não lhes fazia falta dentro portas, e desarmados do importante, lanternas para ver no escuro, açorda da mãe, caldo verde da avó, doce de laranja da mana mais velha, que tão bem que faz doçaria, chora agora a coitada desalmada na calçada do cemitério, ela mais a noiva do defunto, pobre dela que viuvou antes ainda de casar, choram ambas que nem madalenas em frente aos portões da casa eterna, para onde vai o corpo do mano mais novo, vinha namorando a menina dos farias desde quando ainda era piqueno e só corria por entre prados, vai numa procissão de negro, mas a mana leva o doce de laranja que tanta falta fez ao joaozinho pelas terras inimigas, zinho o tanas, era já um homem, não se via o homem, feito que estava, arrepiando caminho para a cova, olha-o, vai atrás do pai e vem o filho dos correias atrás, onde é que era um menino, era joao de corpo e alma feitos, só não vai a enterrar pelo próprio pé porque a pé já foi ele para morrer, que descanse agora o homem corajoso, depois de tanta guerra, fome que terá passado, medo que terá tido, matança que terá visto, amizades sem que terá ficado, comandantes que o terão amedrontado, saudades que terá tido, cuecas que terá borrado, balas de que se terá safado, emboscadas que lhe terão acontecido, armas que terá disparado, vermelho que terá sangrado, sangue que terá derramado, loucura que o terá invadido, céu que lhe terá caído, terra que lhe terá fugido, alma que terá perdido, antes do corpo lhe ter perecido.
Todas as semanas era realizado o que os outros chamavam um rito fúnebre, ao Domingo, como de costume. Os meninos viam ser enterrados os corpos dos seus papás, que chegavam no Sábado ainda fora dos caixões, apressada e disfarçadamente envoltos em mantos, sabiamente negros. Caixões não preparados para os que chegaram, mas para os que viriam, alguém, quem, não sabiam. Não sabiam que nomes pôr no mármore, sabiam apenas que havia mármore a ser preparado e caixões a serem envernizados.
Todos os dias havia reunião no adro da igreja para ouvir notícias da guerra. Todos os dias um oficial do governo era enviado pela Cidade para dar as novas, de aldeia em aldeia, do que se passava 'lá fora'. 'Lá fora' era o que diziam, para nos distraír do cá dentro, um reboliço parecido ao da guerra. Um reboliço que se tentava apaziguar, amainar, ao contrário da guerra lá fora. Todos os dias, viemos a saber no fim, isolados de quem nos fora tirado, aprendemos de que morriam uns e iam a morrer outros e queriam ir morrer mais uns ainda por causas mentidas. Mas todos os dias, no fim de missas diárias, rezadas pelas almas dos que partiram, íamos ouvir o que o senhor de fato, fato como nenhum de nós tinha ou sonhava existir, sabia da guerra. O que nós não sabíamos, nem nunca soubemos.
Todos os sábados apertávamos corações e tomates para irmos ouvir morrer amigos e maridos, de se lhes dizer o nome. Eram sentenças passadas pelo senhor de batina, cujo único resultado era ou vida ou morte. Ou morte. Com palavras em maiúscula éramos ceifados das nossas esperanças, ceifados que eram os nossos irmãos pela boca do padre, nossos pais, filhos, enamorados, noivos até, maridos e cunhados, padrastos, padeiros de todos os dias e leiteiros de de vez em quando, e o senhor dos pombos, o porteiro da escola, o senhor doutor da nossa terra, que fora cuidar dos coitados, sará-los daquilo que o que lhes era imposto lhes fazia, ah, e o rapaz do futebol, que tão bem que ele jogava, não morreu mas ficou sem uma perna, e o amigo dele, que o desamparou do outro lado, caíam que nem tordos, os que nos saíam da beira, levados por Alguém, iam voar e vinham cair os corpos à terra que os viu nascer, e que era lei que os visse mortos, porque morrer não podia ver que iam morrer longe, vinham chover as carcaças que ficavam, lembrar-nos que tantas vezes víramos aqueles rostos vivendo em várias dezenas de alturas, vivos, chorando ou rindo, comprazendo-se ou dolendo, não importa, mexiam membros e diziam cousas, eram nossos vizinhos e nossa família, e foram para o estrangeiro morrer, longe de quem lhes queria bem, de quem não queria que fossem, longe do regaço da mãe e do colo da enamorada, longe até da mão dura do pai que tão bem que sabe o raro carinho, iam para o desconhecido, armados com o que não lhes fazia falta dentro portas, e desarmados do importante, lanternas para ver no escuro, açorda da mãe, caldo verde da avó, doce de laranja da mana mais velha, que tão bem que faz doçaria, chora agora a coitada desalmada na calçada do cemitério, ela mais a noiva do defunto, pobre dela que viuvou antes ainda de casar, choram ambas que nem madalenas em frente aos portões da casa eterna, para onde vai o corpo do mano mais novo, vinha namorando a menina dos farias desde quando ainda era piqueno e só corria por entre prados, vai numa procissão de negro, mas a mana leva o doce de laranja que tanta falta fez ao joaozinho pelas terras inimigas, zinho o tanas, era já um homem, não se via o homem, feito que estava, arrepiando caminho para a cova, olha-o, vai atrás do pai e vem o filho dos correias atrás, onde é que era um menino, era joao de corpo e alma feitos, só não vai a enterrar pelo próprio pé porque a pé já foi ele para morrer, que descanse agora o homem corajoso, depois de tanta guerra, fome que terá passado, medo que terá tido, matança que terá visto, amizades sem que terá ficado, comandantes que o terão amedrontado, saudades que terá tido, cuecas que terá borrado, balas de que se terá safado, emboscadas que lhe terão acontecido, armas que terá disparado, vermelho que terá sangrado, sangue que terá derramado, loucura que o terá invadido, céu que lhe terá caído, terra que lhe terá fugido, alma que terá perdido, antes do corpo lhe ter perecido.
Monday, July 11, 2011
Gira, dá Volta e Gira
Gira, dá a volta e puxa! Tão simples quanto isso. Fica fechado. Não há volta a dar, não há maneira de sair e assim, simples e rápido, o mundo fica selado.
Gira, dá a volta e puxa, é o que basta para não fugir, para não escorrer, para não mais viver. Um mínimo esforço e um grande resultado. Uma outra historia que não vai ocorrer e tudo continua como deve ser.
Gira, dá a volta e puxa! É isto que é preciso para fechar. Um preservativo é preciso lacrar para não deixar o esperma sair e engravidar, ou até adoentar. Coitados dos pequenos que ainda não são gente, nunca o serão, nunca tiverem a oportunidade de o vir a ser, basta esse rápido gesto ocorrer.
Tanta gente que poderia nascer. Tantos fechos e selamentos e lacramentos e impedimentos e nenhuma vida a ter lugar. Tanto esforço, energia, cansaço, satisfação e um pequeno gesto torna tudo em vão. Um pequeno movimento e tudo é para nada, tudo é para o momento, tudo é para o prazer.
Gira, dá a volta e puxa!
Gira, dá a volta e puxa, é o que basta para não fugir, para não escorrer, para não mais viver. Um mínimo esforço e um grande resultado. Uma outra historia que não vai ocorrer e tudo continua como deve ser.
Gira, dá a volta e puxa! É isto que é preciso para fechar. Um preservativo é preciso lacrar para não deixar o esperma sair e engravidar, ou até adoentar. Coitados dos pequenos que ainda não são gente, nunca o serão, nunca tiverem a oportunidade de o vir a ser, basta esse rápido gesto ocorrer.
Tanta gente que poderia nascer. Tantos fechos e selamentos e lacramentos e impedimentos e nenhuma vida a ter lugar. Tanto esforço, energia, cansaço, satisfação e um pequeno gesto torna tudo em vão. Um pequeno movimento e tudo é para nada, tudo é para o momento, tudo é para o prazer.
Gira, dá a volta e puxa!
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