É sem querer que escrevo num papel em branco, esperando este vãmente que eu o vá a preencher. Está com pouca sorte, e com pouca sorte tem estado, que não me apetece encher o papel com o meu vazio. Tem-se escondido, esse ruído cuja origem sempre se me escapa, esse oco sentido... Está onde não o encontro, talvez permeio da desarrumação do meu estado de espírito, debaixo das ruínas da alma que sinto não me pertencer... Sempre que vou à procura dele, lá se foi, chama por mim sei lá donde, espera-me, mas quando chego para o olhar nas órbitas corre a esconder-se, e sem ele não há palavras que inundem papel que delas precise. Burro, nabiço de hortas desertadas, volta, anda cá, preenche-me de ti, que contigo sou maior do que quando me sinto cheio.
De algo demasiado é que saem estas palavras desimportadas da linguagem. É demais dentro de mim, e demais o meu desconhecimento desta demasia, escorrem-se ambos de mim em monólogo para audiências externas e internas, correm a aliviarem de mim o fardo que é carregar sozinho um peso que é para partilhar comigo mesmo se os outros não estão disponíveis ou queridos. Correm porque de faca em punho os expulso de mim, de bom grado cá ficavam, morrinhando nos cantos mais inexplorados da alma que sendo minha com eles partilho. Mas não pagando renda, rua, vadios, ide-vos! Pelas palavras bazai daqui, deixai-vos do beatério sobre o meu eu mais profundo, pelas palavras vos expurgo d'i.
Já estou melhor. Até daqui a um bocado.
Wednesday, October 26, 2011
Thursday, August 25, 2011
Violoncelos e Sacos de Cimento
Carregar violoncelos e sacos de cimento ao ombro. Em vez de folgar, de descansar e repousar do diário martírio da sucessão de sacos de cimento, o meu ombro esquerdo não tem remédio, e hoje, de violoncelo ao ombro, vou a repetir o ritual. Queixa-se quando sente o baque daquele corpo enorme de madeira na pele, alivia um pouco, mas depois, à medida que o vai carregando, vai gemendo mais dentro da carne. Range. Tresloucado, diz ao cérebro que não aguenta mais. E pouso-o. É a vez do ombro direito.
Oupa! Aqui vai! Ora... vamos lá...! E trôpegos sob o peso extra meus pés me levam rua fora, empunhando um violoncelo como se de uma espingarda se tratasse, daquelas que se viam passeando avenida fora, vomitando um cravo num abril do passado. As pessoas olham quando passa o gigante, castanho, imponente. Apesar dos queixumes que já sinto do ombro, sinto-me bem com a atenção. E para servir a dois propósitos, baixo o instrumento, sento-me na mureta da avenida e, com aquele corpo entre pernas, armado de um arco, começo a disparar flechas.
Uma senhora atarefada que passava mesmo à minha frente, desapercebida de mim, pára mal ouve a primeira nota. Prolongo-a, lenta, melodiosa, bela. A senhora pousa o saco das compras, já lhe doerão os dedos, pára, escuta e olha. Suspendo a nota, e no momento certo, atiro com a segunda e a terceira, já não tão lentas... mas ainda assim, quero primeiro chamar à atenção. Só depois inicio a música ao ritmo normal.
Não levanto a cabeça uma só vez, olhos trancados no cavalete e no braço, escorrendo cordas abaixo, cordas acima, à medida que arco, de um lado, e dedos, mais acima, modulam o ar à minha volta. O som reverbera por entre o ar, faz vibrar as gotas de oxigénio, sinto-o nos meus ouvidos, sinto-o na pele, sinto-o no suster de respirações de quem me segue o olhar. O meu gigante castanho não se queixa, estará a gostar da atenção tanto ou mais do que eu, já que ele é a estrela que todos observam.
Há quem bote uma moeda para a minha frente, e é então que levanto a cabeça para observar. É um senhor em idade de reforma, mas jovial em aparência e trejeitos. Arrepio caminho por entre a pauta na minha cabeça, mas não deixo de o olhar por uns momentos. Quando acabo a música, palmas soam, entre elas a dele, e é a ele que digo "Meu caro senhor", apanhando do chão a moeda de dois euros, "não quero dinheiro, obrigado. Agradeço-lhe o afecto que representa, mas não quero mesmo dinheiro, não é por isso que toco na rua", parece embasbacado. Recebe o dinheiro de volta e enfia-o no bolso. "Então tocas mais um bocado", e agraciando-o, inicio mais uma melodia.
Atiro com as notas para o ar, como fiz à moeda. Paguem-me com o que lhes dou, com som. Paguem-me com o som das palmasm, que é por isso que ando tanto de violoncelo ao ombro, e se realmente me querem dar algo do mundo, paguem-me uma sandes e uma cerveja. Para que amanhã, depois da tortura que será o resto da viagem de hoje, os meus ombros alimentados se queixem um pouco menos quando começarem, ao raiar do sol, nos sacos de cimento.
Oupa! Aqui vai! Ora... vamos lá...! E trôpegos sob o peso extra meus pés me levam rua fora, empunhando um violoncelo como se de uma espingarda se tratasse, daquelas que se viam passeando avenida fora, vomitando um cravo num abril do passado. As pessoas olham quando passa o gigante, castanho, imponente. Apesar dos queixumes que já sinto do ombro, sinto-me bem com a atenção. E para servir a dois propósitos, baixo o instrumento, sento-me na mureta da avenida e, com aquele corpo entre pernas, armado de um arco, começo a disparar flechas.
Uma senhora atarefada que passava mesmo à minha frente, desapercebida de mim, pára mal ouve a primeira nota. Prolongo-a, lenta, melodiosa, bela. A senhora pousa o saco das compras, já lhe doerão os dedos, pára, escuta e olha. Suspendo a nota, e no momento certo, atiro com a segunda e a terceira, já não tão lentas... mas ainda assim, quero primeiro chamar à atenção. Só depois inicio a música ao ritmo normal.
Não levanto a cabeça uma só vez, olhos trancados no cavalete e no braço, escorrendo cordas abaixo, cordas acima, à medida que arco, de um lado, e dedos, mais acima, modulam o ar à minha volta. O som reverbera por entre o ar, faz vibrar as gotas de oxigénio, sinto-o nos meus ouvidos, sinto-o na pele, sinto-o no suster de respirações de quem me segue o olhar. O meu gigante castanho não se queixa, estará a gostar da atenção tanto ou mais do que eu, já que ele é a estrela que todos observam.
Há quem bote uma moeda para a minha frente, e é então que levanto a cabeça para observar. É um senhor em idade de reforma, mas jovial em aparência e trejeitos. Arrepio caminho por entre a pauta na minha cabeça, mas não deixo de o olhar por uns momentos. Quando acabo a música, palmas soam, entre elas a dele, e é a ele que digo "Meu caro senhor", apanhando do chão a moeda de dois euros, "não quero dinheiro, obrigado. Agradeço-lhe o afecto que representa, mas não quero mesmo dinheiro, não é por isso que toco na rua", parece embasbacado. Recebe o dinheiro de volta e enfia-o no bolso. "Então tocas mais um bocado", e agraciando-o, inicio mais uma melodia.
Atiro com as notas para o ar, como fiz à moeda. Paguem-me com o que lhes dou, com som. Paguem-me com o som das palmasm, que é por isso que ando tanto de violoncelo ao ombro, e se realmente me querem dar algo do mundo, paguem-me uma sandes e uma cerveja. Para que amanhã, depois da tortura que será o resto da viagem de hoje, os meus ombros alimentados se queixem um pouco menos quando começarem, ao raiar do sol, nos sacos de cimento.
Friday, August 19, 2011
2. A Fome
Quando voltares, não haverá nada para ti. Só um prato de sopa e um pedaço de pão seco.
Quando voltares, a única coisa que te darei será um prato de sopa.
Se voltares, farei para que tenha um prato de sopa quente para te receber.
Volta, por favor.
Volta, e dar-te-ei tudo. Dar-te-ei o meu mundo.
Um prato de sopa e um naco de pão seco.
Quando voltares, a única coisa que te darei será um prato de sopa.
Se voltares, farei para que tenha um prato de sopa quente para te receber.
Volta, por favor.
Volta, e dar-te-ei tudo. Dar-te-ei o meu mundo.
Um prato de sopa e um naco de pão seco.
Wednesday, August 17, 2011
3. A Morte
Vim morrer a Ribeira de Pena. Não vim por amigos perdidos ou familiares esquecidos, nem por amores antigos de uma juventude feita de beijos roubados, de bom grado furtados debaixo das longas saias das mães. Não vim pelas memórias contadas pela calçada e pelas esquinas, e muito menos para morrer entre as quatro paredes que me viram nascer. Vim morrer a Ribeira de Pena porque tem de ser.
Não é um acto simbólico de ciclicismos da vida. Não vim por um arrependimento que, chegada tão perto a hora da morte, me obriga a tentar colmatar falhas do passado - e falhar. Não é um acto de egoísmo, não vim para que me vissem falecer os que compartilham do meu sangue, e por sua dor se compadecessem de mim. Não vim porque não tinha mais para onde ir, Ribeira de Pena é o último sítio em que penso como sendo um possível refúgio. Vim para Ribeira de Pena porque aqui não há barulho, e quero ouvir as asas da morte chegando.
Não me importo de reviver as memórias de um passado tão doce quanto mais distante, não me importo de me rodear dos que me são próximos, dos meus amigos de infância e dos irmãos que me restam, e tão-pouco me importo se um amor do mais-que-perfeito me revisita e me faz provar do fantasma daquele sentimento de fuga, violação de regras, hormonas e pele. Mas no fim, não importa. Vim morrer a Ribeira de Pena porque sei que a morrer, morro só, e mais vale só que mal acompanhado.
Não é um acto simbólico de ciclicismos da vida. Não vim por um arrependimento que, chegada tão perto a hora da morte, me obriga a tentar colmatar falhas do passado - e falhar. Não é um acto de egoísmo, não vim para que me vissem falecer os que compartilham do meu sangue, e por sua dor se compadecessem de mim. Não vim porque não tinha mais para onde ir, Ribeira de Pena é o último sítio em que penso como sendo um possível refúgio. Vim para Ribeira de Pena porque aqui não há barulho, e quero ouvir as asas da morte chegando.
Não me importo de reviver as memórias de um passado tão doce quanto mais distante, não me importo de me rodear dos que me são próximos, dos meus amigos de infância e dos irmãos que me restam, e tão-pouco me importo se um amor do mais-que-perfeito me revisita e me faz provar do fantasma daquele sentimento de fuga, violação de regras, hormonas e pele. Mas no fim, não importa. Vim morrer a Ribeira de Pena porque sei que a morrer, morro só, e mais vale só que mal acompanhado.
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