Saturday, December 19, 2009

Liberdade de expressão


Eles caminham por uma densa floresta, as árvores são baixas, estranhamente baixas. A zona mais baixa das copas quase lhes toca na cabeça. É Outono e as árvores à sua volta brilham douradas, vermelhas, castanhas e amarelas. O chão da floresta está coberto por um manto de folhas secas das mesmas cores que as árvores.
Andam de mãos dadas. Ele com o seu cabelo castanho, quase preto… Está vestido com uma túnica azul-escuro e umas calças de linho beges. Os seus olhos são pretos e profundos e ele amarra com uma mão forte a suave mão dela. Ela tem os cabelos lisos, ruivos e veste-se com uma camisola verde de lã e uma saia comprida até abaixo do joelho castanha escura. Os seus olhos são cor de mel, delicioso mel. Ela prende o cabelo, da frente atrás com um laço feito com um fio de couro castanho, no cabelo dele, do lado direito há uma madeixa de cabelo mais comprida que o resto, e toda ela está amarrada por uma fita vermelha.
Eles namoram e no início ele tinha o cabelo mais comprido e atava-o atrás e ela tinha-o muito mais curto mas atava-o da mesma maneira.
Percorrem aquela floresta de olhos fechados pois não conseguem olhar um para o outro. Não aguentam o olhar um do outro porque sabem o que têm que fazer e o que isso levará a acontecer. E por estranho que pareça ambos pensam no dia em que se conheceram.
“Ela conduzia a velha carrinha do seu pai, passava rente entre as árvores. Transportava a fruta acabada de colher, do pomar para a fábrica de tratamento da fruta. Era o que ela sabia fazer, era o trabalho dela, era o que lhe tinham ensinado. É a pequena missão da sua simples vida. Ela era ainda jovem e não sabia nada da vida para além disso, muito menos sobre rapazes.
Chegada à fábrica, um jovem rapaz apareceu vindo de dentro para descarregar o que ela trazia, era ele. Era muito bem parecido e pela aparência um pouco mais velho e mais alto que ela. Começou a descarregar a carrinha sem aviso e quando ela saiu da carrinha para o ajudar ele disse:
- Não precisas de ajudar…
- Não?
- Não…
- Não preciso, mas assim é mais rápido. – E sem lhe prestar atenção começou também a descarregar.
Ao fim de um demorado silêncio ele voltou a falar
- Não devias estragar as tuas mãos. São demasiado bonitas para isso.
- Obrigada. – Disse corando intensamente.
Isso foi o suficiente para a fazer parar. Ela encostou-se à carrinha e pôs-se a brincar com as luvas que usava para carregar as caixas que tinha guardado no cinto dela.
- De nada. As verdades são para ser ditas. – Disse ele com um sorriso na cara. – Bernard.
- O quê? – Perguntou aparvalhada.
- Bernard! O meu nome é Bernard…
- Ahhh, sim! Sim, claro. Lúcia. Chamo-me Lúcia…
- Então olá Lúcia.
- Olá. És novo por cá?
Ela questionava-o agora curiosa pela espontaneidade daquele rapaz estranho mas querido. Ele estava continuamente a entrar e a sair do armazém a levar as caixas mas isso não os impedia de falar.
- Sim, sou. Antes trabalhava nas lojas enquanto era jovem e engraçado e as senhoras achavam-me piada e isso incentivava-as a entrar e comprar por causa do meu aspecto. Trabalhava com a minha mãe, agora trabalho aqui com o meu pai, o Hugo.
- És filho do Hugo?
- Sim…
- É um bom homem…
- Sim, é…
- E aposto que ainda atrais as senhoras… – Disse desafiadoramente.
- Desculpa?
- Ahhh… Nada…
- Vá lá! Não ouvi…
- Disse que ainda deves atrair as senhoras.
- Sim, mas só as mais velhas
- Isso não pode ser verdade, porque eu até acho que sou mais nova que tu! - Disse enquanto entrava na carrinha e ligava o motor.
- O quê?
- Até logo senhor Bernard…
- É só Bernard… Lúcia… – Chamou quando ela já se desviava.”
Eles encontraram-se muitas vezes depois desse primeiro momento e a amizade aprofundou-se de cada vez que se encontravam. Tornaram-se muito íntimos e passavam todo o tempo que podiam juntos.
Lembram-se de todos os momentos bons que passaram juntos e que partilharam, alguns são mais vivos e mais reais, outros estão mais apagados e esquecidos, mas o facto de darem as mãos e estarem assim um tão perto do outro, traz lembranças esquecidas à tona, como o primeiro momento em que o namoro se viu.
“Era Verão. Encontravam-se por baixo de uma árvore solitária ancestral no cimo de uma pequena colina verdejante. Fazia muito calor e eles estavam deitados na relva fresca, sob a sombra para se refrescarem, nem que apenas um pouco. Bernard olhava para o céu com os braços por baixo da cabeça, com um olhar inquiridor, pensando em mistérios na cabeça dele. Lúcia estava deitada ao lado dele, de olhos fechados com um suave sorriso nos lábios.
Bernard levantou-se, olhou para baixo, para ela, e disse:
- O dia está muito bonito.
- Pois está… – Falou sempre de olhos fechados.
- Não há nuvens… Faz um calorzinho bom…
- Humm humm…
- Ainda bem que fugimos ao trabalho.
- Pois…
- É bom estar aqui sem fazer nada…
- Diz lá o que queres de uma vez Bernard…
- Bem, é que… tu sabes… – Tentou dizer muito atrapalhado pela frontalidade dela. – Sabes sempre o que quero fazer… que chatice…
- Sim, pois… E quando é que te vais decidir a dizer-me o que queres?
- Sim… Bem… Não é bem dizer-te. - Disse ele corando. – Eu mostro-te…
Baixando-se sobre a cara dela fechada, dá-lhe um suave e breve beijo nos seus doces lábios róseos. Sem abrir os olhos, Lúcia admirou-se e mostrou alargou o seu leve sorriso. Ele sem saber o que fazer voltou a deitar-se envergonhado.
De súbito Lúcia levantou-se rapidamente, olhou para baixo para Bernard e sem avisar puxou-lhe o fio de couro que lhe atava o cabelo e prendeu o dela. Ela tirou a fita vermelha que lhe prendia o cabelo e estendeu-lha a ele.
- Enquanto estivermos juntos isto não pode sair do teu cabelo.
- Nem para tomar banho?
- Ok, excepto quando tomares banho…
- E se eu quiser cortar o cabelo? – Perguntou sorridente.
- Também pode ser. - Disse revirando os olhos. – Mas que menina. – E riu-se. Riram-se ambos. – Mas em mais nenhuma circunstância.
- Tudo o que a princesa desejar… – Gozou fazendo uma vénia sentado.
Juntos riram-se naquela longínqua e doce tarde de Verão.”
Agora lembram-se desses bons momentos e já sentem saudades e desejam poder voltar atrás com todas as suas forças. Mas sabem que isso é impossível, que nunca vai acontecer, que por tudo o que possam fazer nada trará o passado de volta.
Todos da comunidade vivem oprimidos pelos desejos daquele tirano, daquela horrível pessoa que insiste em fazer a sua vontade ser cumprida. Toda a gente trabalha para o Lorde Xifon, para fazer a sua riqueza aumentar a olhos vistos cada dia. Todas as suas vidas são guiadas para agradar, para dar prazer a essa criatura desprezível. Tudo o que fazem é para agradar àquele opressor que todos odeiam, de quem toda a gente se quer ver livre, mas contra quem ninguém faz nada. Têm medo do que possa acontecer aos seus, do que ele possa fazer.
Eles caminham pelo meio daquela floresta acompanhados por muitos outros como eles. Todos estão silenciosos, todos estão cabisbaixos, todos estão cientes do que vão fazer, da posição que tomaram e que vai mudar as vidas de muitos. Depois da escolha tomada, da posição escolhida não há volta a dar, todos sabem disso, e agora era tarde para voltar atrás.
- Desculpa. - Disse Bernard, quebrando o silêncio no qual andavam, olhando para ela.
- De quê? – Perguntou Lúcia admiradíssima.
- De não te poder proteger… De te levar a fazer coisas… De te trazer para aqui… para o meio disto…
- Pára. – Disse estacando e agarrando com as duas mãos a cara dele. – Eu estou aqui porque quero. Sabes que sim…
- Sim, eu sei, mas preferia que não estivesses, que não o quisesses… mas adoro que estejas aqui comigo…
- É onde quero estar, quero marcar uma posição. Quero fazer algo importante, não posso deixar que os outros façam tudo por mim. E quero estar sempre do teu lado…
- Mas e os teus pais? Disseste-lhes?
- Porque é que só agora queres saber? É claro que não sabem… – Disse virando a cara. - Deixei-lhes uma carta a explicar.
- Deve ser melhor assim…
- É… Talvez… Eles hão de compreender. Hão de ultrapassar tudo…
- Sabes que no fim quem vai pagar são os que ficam…
- Sim, eu sei, vai custar a todos… Mas eles são fortes, todos eles…
Chegam ao seu destino, olham em volta e vêem os seus rostos espelhados nos rostos À sua volta, o medo, a dúvida, a coragem. Sentem o vento a bater nas suas caras enquanto vêem outros que já avançaram. Olham um para o outro.
- Tens a certeza disto? – Perguntou ele.
- Sim, tenho. – Mas os seus olhos mostravam dúvida e estavam marejados de lágrimas, reluzentes á luz do Sol.
- Depois não há volta a dar… Sabes disso… – Não era uma pergunta.
- Sim… mas estou contigo, por isso não tenho dúvidas.
- Então? Pronta? - Também ele já tinha lágrimas prontas a serem vertidas.
- O melhor que consigo…
Sem aviso imitam tantos outros à sua volta e dão um passo em frente, para a luz intensa do entardecer. O vento passa à sua volta. Caem tão rápido que não conseguem sentir o ar. Eles choram, abraçam-se, beijam-se com um fervor que nunca antes sentiram. Eles tentam ter tudo antes do seu prematuro final. Então segundos antes, acalmam-se e deitam-se lado a lado no ar e olham nos olhos um do outro…

Friday, December 4, 2009

Carapaça

Acordou sobressaltado numa cama ensopada em suor. E foi no momento do seu sobressalto que deixou de o sentir. O sentimento interrompeu-se.

Sentia-se febril, doente. Se tivesse olhado o relógio, teria visto que faltava pouco para as dez da manhã, mas houve algo que o intrigou. A luz amarela do sol lá fora não era a mesma que dava luz ao quarto. Essa luz vinha de perto da porta, mas a sua proveniência estava escondida pelo guarda-fatos. Apesar de ser uma luz branca, era acolhedora, quente. Não conseguia ver de onde a luz provinha, mas sentiu curiosidade suficiente para ir ver.

Contudo, antes de conseguir sair da cama, o sol apagou-se. Agora, o próprio quarto brilhava aquela estranha luz de volta para o ar, como se a reflectisse. E então uma voz falou.

- Escusas de te levantar. Não me podes ver.

- Não és tu que eu quero ver.

- Então vem.

Apesar da vontade, de novo ele não saiu da cama, pois antes de pôr os pés no chão, uma esfera de um prateado puro levitou desde o canto que o guarda-fatos fazia com a parede até à frente da sua cama. Era essa esfera que iluminava tudo, e o seu coração começou a bater mais depressa quando a viu. A sua voz tornou-se rouca, cava, ao dizer:

- O que é isto?

A voz não lhe respondeu, porque sabia que a pergunta não era para ela. O olhar dele fixou-se somente naquela esfera, onde conseguia ver imagens imperceptíveis, mas que lhe causavam medo, dor, frustração, nostalgia, paixão, receio, alegria, pena, incerteza, susto, e mais vinte mil leques de emoções que ele não soube reconhecer. E apesar de não se ter apercebido, ele sentiu tudo isso ao mesmo tempo, durante o tempo em que ficou estarrecido olhando a bola flutuante.
Num instante o esférico desfez-se em pó, e o seu coração voltou ao estado normal. A magnífica poeira continuava a iluminar o espaço, com aquela sua luz muito característica. Sentiu-se triste pela perda da forma esférica, mas recompôs-se tão rapidamente que nem se apercebeu que ficara triste.

- Desculpa - disse a voz, arrependida.

Antes de conseguir perguntar porque a voz pedia desculpa, todas as microscópicas partículas pirilampescas explodiram num clarão que lhe cobriu os olhos de branco. Não entrou em pânico à conta disso, mas sim da forma que sedosamente aparecia por entre a névoa branca, à medida que esta desaparecia. Era uma figura de mulher, tão eloquente nos seus passos em direcção à sua cama. Luminescia da mesma forma que a esfera que desaparecera.

O seu coração começou a correr mais depressa do que alguma vez o fizera. A sua garganta apertou-se, quase cortando a passagem do ar, e a sua visão entorpeceu, à medida que a água lhe assomava aos olhos cautelosamente. Não conseguia falar, e a mão que ergueu para acariciar aquela figura conhecida tremia. A mulher sorriu, e ele tristemente sorriu de volta, fazendo lágrimas cair na colcha. A voz atrás do guarda-fatos fungou. A mulher aproximou-se dele pela lateral da cama, e ele aproximou a mão do seu cabelo de luz.

Os dedos não lhe tocaram, mas ele sentia neles um calor humano, enquanto que eles e a luz ocupassem o mesmo espaço. E apesar de ser só luz, sentiu um cheiro que não estava no quarto, sentiu vozes tão difusamente fracas que não podiam estar a ser pronunciadas naquele momento, e sentiu clarões de imagens que ele não estava a ver. Assustou-se e retirou a mão. A mulher usou os lábios para desenhar palavras no ar que não obtiveram som, mas ele percebeu o que fora dito. E do nada, a voz falou.

- Acabou.

A luz precipitou-se na direcção do seu peito e de lá não saiu. Com a cabeça deitada no travesseiro, chorou lágrimas que não sabia serem prateadas até adormecer, olhando na sua mesinha de cabeceira um momento congelado que a mesma pessoa que o visitou vivera. Em tempos.

Sunday, November 29, 2009

Carne

O táxi teve que dar a volta ao prédio. Quanta enrolação! Quanto trânsito. Perdemos a introdução dos colegas e as primeiras brincadeiras. Notei isso quando o taxi terminava de fazer o retorno na rua e uns jovens estavam passando pelo lado de fora do hotel, formando um circulo que só termina dentro do prédio, passando por uma portas de vidro. Caminhavam todos de mãos dadas no meio de tanta risada. Estava eu realmente empolgada para aquilo? Eu fazia força pra ainda gostar de algumas coisas, porque na verdade era preciso participar e achar graça em certas “piadas”, ou sempre iria continuar me sentindo um peixinho fora da água. O fim começou a acontecer ao sair daquele táxi. Estava atrasada, tinha pressa em pagar a minha parte. Naquela pressa toda, a minha colega emprestou o telemóvel dela para eu poder fazer uma ligação de vez em quando para o meu namorado. Não era importante pra ela ter o próprio telemóvel em mãos, porque o que mais a excitava era a grande bagunça que já acontecia dentro do hotel. Olhei pro telemóvel e descobri que ele era muito mais sofisticado do que imaginava e que pra escrever uma mensagem tinha que saber qual dos botões coloridos deveria ser apertado primeiro. Como já era fim de noite, caminhavamos com pressa até a entrada do hotel. Quer dizer, eu seguia a minha colega em seus passos rápidos. Algumas meninas passsavam por nós. Elas estavam histéricas. Naquela noite, elas sabiam que tinham a possibilidade de se divertir, beijar algum menino bonito, cheiroso. E quem sabe, ficar com o número dele pra depois ir atrás de outro mais bunitinho. Eu continuava intrigada em conseguir mandar pelo menos uma sms ao meu namorado, dizendo que já tinha chegado ao local e que afinal de contas, tudo continuava bem. Na primeira impressão que eu tive, o elevador parecia um pouco torto. Subia, subia. Eu decide ficar parada no meio do elevador pra equilibrar o peso. Que idéia mais tola! Ninguém faz isso! Não é preciso porque essas máquinas sabem muito bem o que estão fazendo. Aliás, quem não parecia saber o que estava fazendo era o responsável que nos guiava depois que saimos do elevador. Nós queriamos ir para o andar de baixo, lá, aonde estão os jovens formando uma grande roda e dentro desta mesma roda, mais outra e mais outra. Uma roda de jovens. Tinha uma carinha ou outra que eu conhecia. Vi uns meninos altos, alguns com cabelos cacheados e lembrei do meu namorado. Ele não podia estar ali e naquele momento não lembrava mais a razão por ele não estar lá, mas sabia que aquela folia toda o deixaria mais feliz do que normalmente é. A pessoa que nos guiava explicou que o motivo pelo qual não estávamos descendo para nos unir aos outros, era pelo simples fato de termos chegado atrasadas. Tínhamos que esperar por eles no andar de cima. Havia um grande buraco no centro do prédio aonde era possível inclinar a cabeça pra baixo e ver o que se passava por lá. Depois de alguns momentos, eles começaram a subir e conforme iam chegando, iam entrando na sala aonde eu estava.

Eu estava parada, encostada na parede. Reparei que todas a meninas usavam a mesma roupa. Uma camisa branca usada por dentro de uma saia preta que vinha até em cima da cintura. Parecia ser uma roupa já pré estipulada para a ocasião. Curioso. Foi tudo muito rápido, uma vez que eu estava ali apenas olhando, tentando encontrar algum rosto que fosse simpático o suficiente para começar uma conversa. Os rapazes se encontravam mais agitados do que as meninas. Eles já se conheciam todos? Parecia. Eles davam umas risadas, com força, com fome e se agitavam por todos os lados. Observadora e no meu canto, eu vi de longe que um rapaz segurava por debaixo da camisa uma jarra plástica de água e mostrava curioso para um outro rapaz. Ufa, não era uma arma. Era apenas água. Pra que ele quer água? Eu disse pra menina que se encontrava ao meu lado o que aquele rapaz tinha debaixo da camisa. Ela olhou pra mim e deve ter pensado de onde vinha tal preocupação minha nisso. Deixa ele ter o que ele quiser dentro da camisa! O tal rapaz desceu para o andar debaixo, através das rampas que eram emf romas de caracol. No andar de cima, eu conseguia ver tudo o que se passava nos andares de baixo. Ele passou em frente de umas meninas e jogou água nas camisas delas. O sutiã ficou bem a mostra e elas ficaram com aquele ar de indignação e piadinha da situação ao mesmo tempo. Ele não parou por ali, continuou jogando água nas camisas das outras camisas. Eu não tava muito afim de participar daquilo e resolvi alertar as meninas que ali estavam comigo. “Olha, estão jogando água nas camisas das meninas pra poderem ver o sutiã” Este meu comentário parece muito childish e não surgiu nenhuma preocupação nelas. Tinha um rapaz, pequeno e elétrico. Ele falava alto, dava umas risadas com força e foi ele quem começou a apalpar os seios das meninas que ali estavam ficando com as camisas molhadas. Assim começou. Mesmo aquelas que mostravam não gostar da brincadeira, ele dava mais risada ainda. Apertava os seios, dizendo comentários em voz alta para os outros e todos acabavam na risada. A minha visão ficou estranha. Com um nervoso súbito que subiu no meu corpo todo, tudo que estava a minha volta parecia estar mais aguçado. Eu só conseguia ver aquilo que se encontrava no meio da minha visão. Fui subindo as rampas do caracol. Queria ficar longe daquilo. Ia subindo e ia tentando ligar pro meu namorado pra dizer que aquilo não estava muito no espirito que eu esperava. A ligação terminou depois que ouvi a voz do meu namorado. Não consegui dizer mais nada porque o tal rapaz elétrico já estava por trás de mim, segurando com as duas mãos os meus seios. Eu paralizei. Não disse nada. E ele ficou ali apertando intensamente e dando risada em voz alta. Os outros chegavam perto de mim, me analisando. Eu decidi não falar nada, porque sentia que o fato de lutar contra a atitude deles, os deixava mais excitados. A minha ficha caiu. Estávamos sendo escolhidas. Íamos ser comida e fazer parte de uma suposta brincadeira de mal gosto naquela noite. Quando olhei em volta, percebi que a maioria eram meninos. E naquela altura já estavam todas as meninas berrando, implorando para tudo acabasse. Acabou a brincadeira. Aqueles meninos que eram bunitinhos no começo daquela noite e agora tinham se tornado nojentos. Monstros. Calma! Eu dizia para uma menina que estava ao meu lado. Não demonstre medo! Aonde estava a minha colega? O telemovel dela ainda estava comigo. E se ela quisesse usar para falar com alguém também? Aonde ela estava? Ai meu Deus... Nos colocaram uma do lado da outra. Um rapaz qualquer chegou por trás de mim, me apertou. Ficou agarrado, me segurando entre os braços fortemente. Eu sentia a exicitação dele por trás de mim ao mesmo tempo que eu controlava a minha respiração. Que vontade de gritar, que vontade de chorar, que vontade de vomitar. Nojo! Passou as suas mãos nas minhas pernas, e foi subindo com os dedos. Ele queria saber como eu era por dentro. Tinha carne. Eu era de carne e aquilo doia. Não tinha delicadeza nos dedos dele. Ele não tinha o menor cuidado. Me machucava tanto... Eu tive que pedir pra ele parar. As palavras foram mais fortes do que eu. Mas o que ele me respondia era apenas o hálito quente que sentia no meu ouvido. Parecia um cachorro. Ele disse “Essa daqui”. Me puxaram para fora da sala. A brincadeira agora era de tirar fotos e fazer vídeos através dos telemoveis deles. Eu era mais do que uma boneca insuflável. Um homem que trabalhava naquele lugar passou por nós e ali foi obrigado a ficar. Os meninos ameaçaram ele caso ele fizesse algum movimento suspeito. Foi “convidado” a assistir a brincadeira. Me batiam. Queriam que eu sorrisse pra foto. Queriam poses, queriam que eu me inclinasse, que me tocasse.

Três homens chegaram com pressa e dizeram que tudo aquilo passou tinha passado do controle e que eles tinham sido descobertos. Mais rápido do que eu pudesse imaginar, eu aproveitei aquela intervenção e saí correndo para as escadas abaixo, enquanto tentava discar o número do meu namorado no telemovel. Não conseguia concluir os números. Nervosa, correndo, olhando os degraus, olhando para trás, fugindo. Precisava aproveitar aquela oportunidade para fazer tudo. Eram instantes que acabam mais depressa... Meu pai atendeu a chamada. Eu tinha uma bola intalada na minha garganta. Tinha que fazer força pra falar, porque todos os sentimentos estavam reprimidos dentro de mim. Tinha que falar rápido. “Pai, chama a policia pro hotel. Eles nos forçaram, machucaram... viramos bonecas pai.” Com o sofrimento de pai, ele me respondeu “Já estão cercando o prédio... filha...” Eu tentei abrir uma porta de vidro que tinha na minha frente enquanto escutava o choro do meu pai. Tinha que me esconder. Até que me puxaram pra trás. Eram dois meninos. Eu disse que o chefe deles já tinha chegado e a resposta foi um soco no nariz. Não se importaram. Viram que eu estava fazendo uma ligação e a raiva cresceu dentro deles. A ligação continuava. Eu perdi o controle que tinha antes e implorei para não me matassem. Meu pai ouvia tudo na linha. Me inclinaram pra frente, batendo nas minhas costas. Iam me castigar, afinal de contas eles já não tinham mais tempo. Com toda força que ainda tinha, gritei que eles iam parar no inferno. O telemóvel caiu no chão, levemente. Diante de tanta dor que eu sentia, eu gritei pro meu pai desligar a ligação. Não era preciso que ele ouvisse mais nada. Os meus nervos pareciam estar dilacerados por dentro. A força toda que meu pulmão tinha, estava envolvida em gritos sendo sufocados com o meu choro. A minha alma não teve condições de continuar presa. Saiu de mim, deixando o meu corpo mole, sem respiração, sem dores.


Estupro: crime de forçar alguém ao coito mediante violência ou grave ameaça.

Juventude: Perídio da vida entre a infância e a idade adulta; mocidade. Energia, vigor.

O carro


À medida que conduzo a nossa velha carrinha por estas estradas desertas, estou a olhar em frente atento ao caminho e tu enrolada no assento ao meu lado olhas para essas planícies secas com vegetação quase inexistente. É o crepúsculo mas ainda não liguei as luzes, não agora, não neste momento belo á medida que o Sol se põe á nossa frente, lenta mas insistentemente.
Eu olho para ti e nem reparas, e penso em tudo o que passamos, penso principalmente no teu pedido meses antes para fazermos esta viagem e apercebo-me, pela primeira vez, que te amo.
“Estamos na tua casa, estamos a ver um programa qualquer, sentados no sofá dos teus pais. Estás encostada a mim e eu com um braço sobre os teus ombros. Sem aviso viras-te e com um olhar de quem acabou de ter uma epifania dizes:
- Temos que ir àquela cidade.
- Ahh?
- Àquela cidade. - Dizes apontando para a televisão. - Temos que ir lá.
É uma cidade qualquer no sul sem qualquer relevância cultural, social ou económica, mas que por qualquer razão decidiste visitar.
- Porquê? – Pergunto.
- Porque eu quero!
- Está bem…
- A sério? Vamos?
- Pode ser. Depois vemos isso…”
Passados quatro meses aqui estamos e apenas agora me apercebo que te amo. Decidimos passar três semanas naquele simples e aborrecido sitio que demora dois dias a chegar. Vamos fazer coisas que realmente não gostamos mas que todas as pessoas que estão de férias fazem.
Sem desviares os olhos da paisagem que passa rapidamente pela janela, vens e encostas-te a mim como fazias á quatro meses atrás quando decidimos fazer esta viagem, esta entediante viagem.
“Numa manhã antes de entrarmos para as aulas na universidade, estou encostado na parede do edifício em que vais ter aulas e tu encostas-te a mim dás-me um suave beijo nos lábios e dizes muito envergonhadamente mas muito sentida:
- Amo-te.
- Eu também. – Respondo sem pensar muito no que disse, quase mecanicamente.
É a primeira vez que mo dizes e eu não dou muita importância e tu também não dizes nada a pensar que eu achei aquela situação muito profunda, que não tenho palavras para o descrever, o que não é verdade. Nem te passa pela cabeça que eu não penso o mesmo que tu.”
Sem me aperceber, e provavelmente sem tu te aperceberes, adormeces encostada a mim e o teu peito move-se lenta e ritmadamente, os teus olhos estão fechados tão levemente que o simples toque de uma pena poderia abri-los.
Tivemos os nossos maus momentos, tantas discussões e tantos problemas que me fizeram querer ir embora. Passamos por isso tudo e agora estamos aqui, assim. Parecem tão perto esses momentos difíceis para ti, mas ao mesmo tempo parece que se passaram á anos atrás.
“- Cala-te! – Ordenas. - Já estou farta!
- Mas eu apenas disse que…
- Só dizes coisas absurdas. – Dizes enfurecida. – Nunca mostras afecto. Nunca falas de coisas que importam, de coisas que nos importam. Não te importas comigo…
- Eu não sou assim, eu não falo de sentimentos. - Digo irritado. – Tu sabes disso…
- Eu sei, eu sei e não gosto disso, mas gosto de ti e quero ficar contigo…
- Então fica. Fica. Mas não me peças para mudar. Sabes que não o farei.
- Sim, sim eu sei, mas não quero ficar assim.
- Se não te sentes bem, então… vai…
- Mas… eu… Amo-te, amo-te muito….
- Eu também…
E depois beijámo-nos e tudo fica bem entre nós. E tu não reparas que eu não disse aquelas três pequenas palavras que significam tanto para ti. Eu podia ter ido embora mas decidi ficar, por ti, para não te ver chorar, para não ouvir as tuas lamúrias.”
Eu continuo a conduzir, está tudo escuro, e reparo que a gasolina está a acabar por isso paro na estação de serviço seguinte e já á algum tempo que a noite caiu. Encho o depósito e entro na carrinha. Tu acordas-te quando saí mas ficas-te na mesma posição por isso quando entro tornas a ficar encostada a mim e logo voltas a adormecer, e nós continuamos a nossa longa viagem.
“- Seu porco. – Cospes-me na cara. – És um nojo, atiras-te a qualquer puta que olha para ti…
- Desculpa, eu não queria…
- Não querias a puta que te pariu. O que fazia a tua língua pela garganta dela abaixo? Não me venhas com histórias. Se não entrasse naquele momento de certeza que já estavas a foder com aquela vaca de merda.
- Mas bebi… e sabes que…
- Sei que o quê? Sei que o quê? Só por beberes uns copos a mais pensas que é justificação para andares metido com essas megeras nojentas para quem olhas? Não me venhas com as merdas de sempre.
- Eu não quero… por favor… amor ouve-me…
- Já estou a ouvir, e a ver as merdas que fazes ainda melhor. È melhor começares a explicar-te, bem e rápido porque estou sem paciência para olhar para essa tua carantonha.
E eu explico-te e tu aceitas-me de volta e decides não voltar a falar deste assunto nunca mais. Eu penso na hipótese que tive de me ir embora, de partir deste longo episodio das nossas vidas que insiste em não acabar, que nunca teve tanto significado para mim como tem para ti. Mas acabo por ficar, acabo sempre por ficar, talvez por ser o que conheço melhor, por ser aquilo que me faz sentir mais confortável. E então tu dizes:
- Amo-te…
- Eu também…
Tudo fica bem entre nós e tu não pensas no porquê de não o dizer, nunca reparas nas palavras que eu não digo, nem duvidas do que sinto. Nós continuamos como sempre estivemos, com apenas mais um obstáculo, um pouco mais magoados e um pouco mais vazios.”
Passa um carro por nós com os faróis no máximo e eu acordo de um transe qualquer, dum pensamento qualquer. Está tudo muito escuro á nossa frente, mal consigo ver. É raro passar um carro por estas longas e desertas estradas. Eu olho para baixo, para ti, e vejo os teus lindos cabelos castanhos lisos e brinco com eles entrelaçando-os entre os meus dedos.
“Tu estás por cima de mim e movimentas para cima e para baixo, num movimento ritmado. Os teus cabelos descem pelas tuas costas suadas colando-se a elas e eu amarro-te a cinta com as minhas mãos incitando-te. Tu dobras-te e agarras fortemente os meus cabelos. Beijas-me intensamente e de súbito levantas-te e gritas de prazer.”
Eu vergo-me e beijo gentilmente o topo da tua cabeça e tu estremeces em resposta. Eu paro imediatamente, não te quero acordar. Pareces tão pacífica e dócil e inesperadamente chamo-te num sussurro:
- Lynn…
Nada. Não me ouves.
- Lynn…
Chamo-te mais alto, desta vez estremeces novamente, mais bruscamente.
- Lynn!
- Sim?... – Dizes ainda meia sonolenta enquanto me olhas apenas com um olho.
- Eu amo-te Lynn…
Tu levantas-te subitamente desperta, olhas-me nos olhos intensamente como se te apercebesses de algo importante e respondes:
- Eu também te amo…
Então beijas-me como nunca antes. Beijas-me com intenção ardente, com paixão, com todo o amor que sentes e consegues colocar neste simples gesto. Eu tento responder da mesma maneira. Neste momento inquebrável, inesquecível embatemos de frente num camião, há sangue por todo o lado…