São belas as noites de Portugal.
Poderia passar um Ramalhete a descrever
O tom dourado do breu
Com que a luz enche as ruas de Portugal
À noite, no Inverno
Parece que entramos nela, e ela em nós,
Com o silêncio dos nossos passos no asfalto
A marcar o ritmo da eternidade
Há uma fonte de
Ténue e contínuo gorgolejar que
Na orla da cidade
Ameaça parar no momento a seguir...
A seguir, a seguir, a seguir,
Mas que teima cantar o passar do tempo gota
A gota.
A luz incide na minha mão e não me deixa ver
O que escrevo.
Faz sentido - não é para agora.
É para alguma rua fria de Portugal
Sem o orvalho à luz da noite alta,
Para que nos sirva de ténue lembrança
Baça, mas que perdura,
Ao som dos nossos passos lentos
Contra o teimoso correr do tempo.
Wednesday, January 16, 2019
Friday, March 30, 2012
Thursday, January 12, 2012
Excerto de Um Retrato de Uma Confissão
Saí da cama para te ir buscar a uma hora inconveniente e absurda, sem razão egoísta. Vesti-me, depois de me ter preparado para dormir, e saí para o frio. Saí porque te queria proteger. Queria abdicar da minha segurança para te dar alguma extra. Queria-te bem, queria que nada te acontecesse, e queria estar lá para o caso de algo acontecer, que me acontecesse a mim.
Pois olha, vai para a puta que te pariu. Se soubesse o que sei hoje, tinha-te deixado lá a morrer ao frio - melhor, tinha-te dito que iria e tinha-te deixado à minha espera, para que sentisses dentro de ti aquele calor de esperança, de não tarda estarei bem, para que ele fosse esmorecendo aos poucos, até só te restarem cantos frios da alma. Devias ter lá ficado, sentada no passeio, vendo as pessoas indo para casa, mais ao menos bem, mas para casa ainda assim. Doía-te a cabeça? Não tivesses ido. Tivesses ficado em casa, a estudar, ou comigo.
Queres estar comigo agora? Vai-te foder. Só que não to consigo dizer. Ouço a tua voz e tudo o que consigo fazer é anuir sabendo perfeitamente que o que deveria fazer era precisamente mandar-te foder, cobrar-te também por aquilo que me cobras. Anuo e vou, vou-te buscar, um quarto de hora estou aí.
E não sabias, mas não deveria ter ido, enfrentei obstáculos e pessoas indesejáveis, enfrentei vergonha e embaraço, tu não o merecendo. Mas pés à estrada, estás à minha espera. Pés à estrada... pés à estrada. Não tenho razão absolutamente nenhuma para isso, mas toca a meter os pés à estrada! Nem sequer mo pediste, disseste-me inclusivé que não fosse, mas pés à estrada e lá vou eu! Credo, como eu te odeio. Soubesse o que sei hoje... Na verdade, já sabia. Na verdade... Eu não queria ver. Mas não tendo reconhecido o devido... pés à estrada.
Pois olha, vai para a puta que te pariu. Se soubesse o que sei hoje, tinha-te deixado lá a morrer ao frio - melhor, tinha-te dito que iria e tinha-te deixado à minha espera, para que sentisses dentro de ti aquele calor de esperança, de não tarda estarei bem, para que ele fosse esmorecendo aos poucos, até só te restarem cantos frios da alma. Devias ter lá ficado, sentada no passeio, vendo as pessoas indo para casa, mais ao menos bem, mas para casa ainda assim. Doía-te a cabeça? Não tivesses ido. Tivesses ficado em casa, a estudar, ou comigo.
Queres estar comigo agora? Vai-te foder. Só que não to consigo dizer. Ouço a tua voz e tudo o que consigo fazer é anuir sabendo perfeitamente que o que deveria fazer era precisamente mandar-te foder, cobrar-te também por aquilo que me cobras. Anuo e vou, vou-te buscar, um quarto de hora estou aí.
E não sabias, mas não deveria ter ido, enfrentei obstáculos e pessoas indesejáveis, enfrentei vergonha e embaraço, tu não o merecendo. Mas pés à estrada, estás à minha espera. Pés à estrada... pés à estrada. Não tenho razão absolutamente nenhuma para isso, mas toca a meter os pés à estrada! Nem sequer mo pediste, disseste-me inclusivé que não fosse, mas pés à estrada e lá vou eu! Credo, como eu te odeio. Soubesse o que sei hoje... Na verdade, já sabia. Na verdade... Eu não queria ver. Mas não tendo reconhecido o devido... pés à estrada.
Thursday, December 8, 2011
Carta a Um Fantasma
Não sei quem és, e ainda assim, conheço-te, talvez, melhor do que gostaria de conhecer... Conheço-te de dentro para fora. Porque te fiz a partir de mim.
Quero agradecer a tua inexistência - dou graças por não existires. Porquê? Porque materializarias tudo o que eu desejo em alguém, e se existires, quem me garante que serás perfeição para mim? Hm? Quem é que me diz o futuro? Prefiro ir coleccionando pedaços de ti ao longo do tempo.
Acho que já tenho alguns, sabes? Acho que já encontrei alguns pedaços da tua alma, mundo fora, e guardei-os para mim; sou eu quem os tem. Não sei se já o sabias... não vieste à minha procura...
Mas hoje... esta noite... queria que estivesses comigo. Agora. Preciso de ti, preciso de braços, preciso de peito, preciso de pele... e de coração. E alma, preciso de alma. Mas é como te digo: se não existes, como é que eu te posso desejar, e querer perto? Essa é outra pergunta... Como é que posso querer a alguém... que existe dentro de mim apenas?
É por isso que te escrevo. Falar-te, escrever-te... comunicar contigo... é como se te criasse, é como se existisses no mundo, só estando longe. Com esta carta a um fantasma faço de ti carne e osso, pele e órgãos, realizo-te, crio-te - a partir do nada. Por isso, e porque agora existes, peço-te, atende ao meu pedido, volta.
Vou estar à tua espera. Já sei como és, conheço-te... Vais-te fingir de desinteresse, vais dizer "agora não posso... estou com demasiadas ocupações", vais-me gozar, só para veres a minha cara vestida de espanto falso quando realmente te vir chegando... Porque eu sei que te dá um gozo enorme excederes as expectativas que achas que me impuseste... Pois olha, estou esperando. Não demores muito.
Quero agradecer a tua inexistência - dou graças por não existires. Porquê? Porque materializarias tudo o que eu desejo em alguém, e se existires, quem me garante que serás perfeição para mim? Hm? Quem é que me diz o futuro? Prefiro ir coleccionando pedaços de ti ao longo do tempo.
Acho que já tenho alguns, sabes? Acho que já encontrei alguns pedaços da tua alma, mundo fora, e guardei-os para mim; sou eu quem os tem. Não sei se já o sabias... não vieste à minha procura...
Mas hoje... esta noite... queria que estivesses comigo. Agora. Preciso de ti, preciso de braços, preciso de peito, preciso de pele... e de coração. E alma, preciso de alma. Mas é como te digo: se não existes, como é que eu te posso desejar, e querer perto? Essa é outra pergunta... Como é que posso querer a alguém... que existe dentro de mim apenas?
É por isso que te escrevo. Falar-te, escrever-te... comunicar contigo... é como se te criasse, é como se existisses no mundo, só estando longe. Com esta carta a um fantasma faço de ti carne e osso, pele e órgãos, realizo-te, crio-te - a partir do nada. Por isso, e porque agora existes, peço-te, atende ao meu pedido, volta.
Vou estar à tua espera. Já sei como és, conheço-te... Vais-te fingir de desinteresse, vais dizer "agora não posso... estou com demasiadas ocupações", vais-me gozar, só para veres a minha cara vestida de espanto falso quando realmente te vir chegando... Porque eu sei que te dá um gozo enorme excederes as expectativas que achas que me impuseste... Pois olha, estou esperando. Não demores muito.
Tuesday, November 8, 2011
Quando a Razão Não Chega
Para que nos possamos expressar o mais fielmente possível, que é como quem diz pintarmos com letras a nossa alma, precisamos por vezes de um impulso, e não o encontrando em nós, atrás da confusão cromática de emoções que de nós se querem evadir, temos que o tentar encontrar nas palavras de outros.
Sonho com uma rapariga: uma moça baixa, de cabelos simples, escuros, caídos livremente sobre as lâminas dos seus ombros. Deveria aparecer à minha porta sorrindo, do nada. Deveria agora bater à porta entre nós e entrar, para que eu descobrisse que ela não passa da namorada do meu colega de quarto.
Não seria uma peça marcadamente diferente das outras que compõem o mosaico da minha vida. Caberia nele perfeitamente. Entrasse uma moça na minha vida haveria nela algo, descoberto sem querer, que faria de um nós uma tragédia.
E foi assim que me apaixonei pela minha prima. O grande perigo das famílias zangadas que cortam contacto materializou-se naquele supermercado. Ela não tem cabelo escuro, mas será essa a única diferença entre ela e a moça que muitas vezes, vezes demais, entra nos meus sonhos conscientes. Já a vi entrar pela sala de aula adentro, pelo meu quarto adentro, sentar-se ao meu lado no autocarro, atender-me no hipermercado, mas nunca a vi entrando pela casa da minha avó adentro, como decerto alguma vez fez. Acontece muitas vezes na vida, calculamos de mil maneiras diferentes um certo cenário, e ele sai sempre ao contrário.
Quando soube, não soube o que sentir. Senti só as pernas fugirem-me para longe, um formigueiro no cérebro e o coração batendo forte em descrédito. Mas a verdade estava aí, ela em vez da moça de cabelos escuros, e eu que me amanhe em aceitá-la, a verdade está-se a cagar para quem ela é e o que faz aos outros.
Ela não sabe - mas desconfia, acho eu. E o meu nervosismo ao pé dela só lhe corrobora as desconfianças. Por isso, afastei-me um bocado. E isso só lhe confirmou as desconfianças já de si corroboradas, certamente. Não sei o que fazer, dói-me a alma de se sentir bem o coração.
Corre-lhe sangue do meu nas veias. Não sei o que fazer, não sei como sair deste círculo. Já a desejei, e agora nego a mim mesmo que ainda a desejo.
Não sei o que faça. Divido-me entre a inerência e inevitabilidade do nojo e a alegria. Um parentesco, corrompendo toda a pureza deste mais nobre dos sentimentos, esta paixão incorpórea. É razão? Não?
Foda-se. Estou fodido.
Sonho com uma rapariga: uma moça baixa, de cabelos simples, escuros, caídos livremente sobre as lâminas dos seus ombros. Deveria aparecer à minha porta sorrindo, do nada. Deveria agora bater à porta entre nós e entrar, para que eu descobrisse que ela não passa da namorada do meu colega de quarto.
Não seria uma peça marcadamente diferente das outras que compõem o mosaico da minha vida. Caberia nele perfeitamente. Entrasse uma moça na minha vida haveria nela algo, descoberto sem querer, que faria de um nós uma tragédia.
E foi assim que me apaixonei pela minha prima. O grande perigo das famílias zangadas que cortam contacto materializou-se naquele supermercado. Ela não tem cabelo escuro, mas será essa a única diferença entre ela e a moça que muitas vezes, vezes demais, entra nos meus sonhos conscientes. Já a vi entrar pela sala de aula adentro, pelo meu quarto adentro, sentar-se ao meu lado no autocarro, atender-me no hipermercado, mas nunca a vi entrando pela casa da minha avó adentro, como decerto alguma vez fez. Acontece muitas vezes na vida, calculamos de mil maneiras diferentes um certo cenário, e ele sai sempre ao contrário.
Quando soube, não soube o que sentir. Senti só as pernas fugirem-me para longe, um formigueiro no cérebro e o coração batendo forte em descrédito. Mas a verdade estava aí, ela em vez da moça de cabelos escuros, e eu que me amanhe em aceitá-la, a verdade está-se a cagar para quem ela é e o que faz aos outros.
Ela não sabe - mas desconfia, acho eu. E o meu nervosismo ao pé dela só lhe corrobora as desconfianças. Por isso, afastei-me um bocado. E isso só lhe confirmou as desconfianças já de si corroboradas, certamente. Não sei o que fazer, dói-me a alma de se sentir bem o coração.
Corre-lhe sangue do meu nas veias. Não sei o que fazer, não sei como sair deste círculo. Já a desejei, e agora nego a mim mesmo que ainda a desejo.
Não sei o que faça. Divido-me entre a inerência e inevitabilidade do nojo e a alegria. Um parentesco, corrompendo toda a pureza deste mais nobre dos sentimentos, esta paixão incorpórea. É razão? Não?
Foda-se. Estou fodido.
Wednesday, October 26, 2011
Monólogo sobre estar farto
É sem querer que escrevo num papel em branco, esperando este vãmente que eu o vá a preencher. Está com pouca sorte, e com pouca sorte tem estado, que não me apetece encher o papel com o meu vazio. Tem-se escondido, esse ruído cuja origem sempre se me escapa, esse oco sentido... Está onde não o encontro, talvez permeio da desarrumação do meu estado de espírito, debaixo das ruínas da alma que sinto não me pertencer... Sempre que vou à procura dele, lá se foi, chama por mim sei lá donde, espera-me, mas quando chego para o olhar nas órbitas corre a esconder-se, e sem ele não há palavras que inundem papel que delas precise. Burro, nabiço de hortas desertadas, volta, anda cá, preenche-me de ti, que contigo sou maior do que quando me sinto cheio.
De algo demasiado é que saem estas palavras desimportadas da linguagem. É demais dentro de mim, e demais o meu desconhecimento desta demasia, escorrem-se ambos de mim em monólogo para audiências externas e internas, correm a aliviarem de mim o fardo que é carregar sozinho um peso que é para partilhar comigo mesmo se os outros não estão disponíveis ou queridos. Correm porque de faca em punho os expulso de mim, de bom grado cá ficavam, morrinhando nos cantos mais inexplorados da alma que sendo minha com eles partilho. Mas não pagando renda, rua, vadios, ide-vos! Pelas palavras bazai daqui, deixai-vos do beatério sobre o meu eu mais profundo, pelas palavras vos expurgo d'i.
Já estou melhor. Até daqui a um bocado.
De algo demasiado é que saem estas palavras desimportadas da linguagem. É demais dentro de mim, e demais o meu desconhecimento desta demasia, escorrem-se ambos de mim em monólogo para audiências externas e internas, correm a aliviarem de mim o fardo que é carregar sozinho um peso que é para partilhar comigo mesmo se os outros não estão disponíveis ou queridos. Correm porque de faca em punho os expulso de mim, de bom grado cá ficavam, morrinhando nos cantos mais inexplorados da alma que sendo minha com eles partilho. Mas não pagando renda, rua, vadios, ide-vos! Pelas palavras bazai daqui, deixai-vos do beatério sobre o meu eu mais profundo, pelas palavras vos expurgo d'i.
Já estou melhor. Até daqui a um bocado.
Thursday, August 25, 2011
Violoncelos e Sacos de Cimento
Carregar violoncelos e sacos de cimento ao ombro. Em vez de folgar, de descansar e repousar do diário martírio da sucessão de sacos de cimento, o meu ombro esquerdo não tem remédio, e hoje, de violoncelo ao ombro, vou a repetir o ritual. Queixa-se quando sente o baque daquele corpo enorme de madeira na pele, alivia um pouco, mas depois, à medida que o vai carregando, vai gemendo mais dentro da carne. Range. Tresloucado, diz ao cérebro que não aguenta mais. E pouso-o. É a vez do ombro direito.
Oupa! Aqui vai! Ora... vamos lá...! E trôpegos sob o peso extra meus pés me levam rua fora, empunhando um violoncelo como se de uma espingarda se tratasse, daquelas que se viam passeando avenida fora, vomitando um cravo num abril do passado. As pessoas olham quando passa o gigante, castanho, imponente. Apesar dos queixumes que já sinto do ombro, sinto-me bem com a atenção. E para servir a dois propósitos, baixo o instrumento, sento-me na mureta da avenida e, com aquele corpo entre pernas, armado de um arco, começo a disparar flechas.
Uma senhora atarefada que passava mesmo à minha frente, desapercebida de mim, pára mal ouve a primeira nota. Prolongo-a, lenta, melodiosa, bela. A senhora pousa o saco das compras, já lhe doerão os dedos, pára, escuta e olha. Suspendo a nota, e no momento certo, atiro com a segunda e a terceira, já não tão lentas... mas ainda assim, quero primeiro chamar à atenção. Só depois inicio a música ao ritmo normal.
Não levanto a cabeça uma só vez, olhos trancados no cavalete e no braço, escorrendo cordas abaixo, cordas acima, à medida que arco, de um lado, e dedos, mais acima, modulam o ar à minha volta. O som reverbera por entre o ar, faz vibrar as gotas de oxigénio, sinto-o nos meus ouvidos, sinto-o na pele, sinto-o no suster de respirações de quem me segue o olhar. O meu gigante castanho não se queixa, estará a gostar da atenção tanto ou mais do que eu, já que ele é a estrela que todos observam.
Há quem bote uma moeda para a minha frente, e é então que levanto a cabeça para observar. É um senhor em idade de reforma, mas jovial em aparência e trejeitos. Arrepio caminho por entre a pauta na minha cabeça, mas não deixo de o olhar por uns momentos. Quando acabo a música, palmas soam, entre elas a dele, e é a ele que digo "Meu caro senhor", apanhando do chão a moeda de dois euros, "não quero dinheiro, obrigado. Agradeço-lhe o afecto que representa, mas não quero mesmo dinheiro, não é por isso que toco na rua", parece embasbacado. Recebe o dinheiro de volta e enfia-o no bolso. "Então tocas mais um bocado", e agraciando-o, inicio mais uma melodia.
Atiro com as notas para o ar, como fiz à moeda. Paguem-me com o que lhes dou, com som. Paguem-me com o som das palmasm, que é por isso que ando tanto de violoncelo ao ombro, e se realmente me querem dar algo do mundo, paguem-me uma sandes e uma cerveja. Para que amanhã, depois da tortura que será o resto da viagem de hoje, os meus ombros alimentados se queixem um pouco menos quando começarem, ao raiar do sol, nos sacos de cimento.
Oupa! Aqui vai! Ora... vamos lá...! E trôpegos sob o peso extra meus pés me levam rua fora, empunhando um violoncelo como se de uma espingarda se tratasse, daquelas que se viam passeando avenida fora, vomitando um cravo num abril do passado. As pessoas olham quando passa o gigante, castanho, imponente. Apesar dos queixumes que já sinto do ombro, sinto-me bem com a atenção. E para servir a dois propósitos, baixo o instrumento, sento-me na mureta da avenida e, com aquele corpo entre pernas, armado de um arco, começo a disparar flechas.
Uma senhora atarefada que passava mesmo à minha frente, desapercebida de mim, pára mal ouve a primeira nota. Prolongo-a, lenta, melodiosa, bela. A senhora pousa o saco das compras, já lhe doerão os dedos, pára, escuta e olha. Suspendo a nota, e no momento certo, atiro com a segunda e a terceira, já não tão lentas... mas ainda assim, quero primeiro chamar à atenção. Só depois inicio a música ao ritmo normal.
Não levanto a cabeça uma só vez, olhos trancados no cavalete e no braço, escorrendo cordas abaixo, cordas acima, à medida que arco, de um lado, e dedos, mais acima, modulam o ar à minha volta. O som reverbera por entre o ar, faz vibrar as gotas de oxigénio, sinto-o nos meus ouvidos, sinto-o na pele, sinto-o no suster de respirações de quem me segue o olhar. O meu gigante castanho não se queixa, estará a gostar da atenção tanto ou mais do que eu, já que ele é a estrela que todos observam.
Há quem bote uma moeda para a minha frente, e é então que levanto a cabeça para observar. É um senhor em idade de reforma, mas jovial em aparência e trejeitos. Arrepio caminho por entre a pauta na minha cabeça, mas não deixo de o olhar por uns momentos. Quando acabo a música, palmas soam, entre elas a dele, e é a ele que digo "Meu caro senhor", apanhando do chão a moeda de dois euros, "não quero dinheiro, obrigado. Agradeço-lhe o afecto que representa, mas não quero mesmo dinheiro, não é por isso que toco na rua", parece embasbacado. Recebe o dinheiro de volta e enfia-o no bolso. "Então tocas mais um bocado", e agraciando-o, inicio mais uma melodia.
Atiro com as notas para o ar, como fiz à moeda. Paguem-me com o que lhes dou, com som. Paguem-me com o som das palmasm, que é por isso que ando tanto de violoncelo ao ombro, e se realmente me querem dar algo do mundo, paguem-me uma sandes e uma cerveja. Para que amanhã, depois da tortura que será o resto da viagem de hoje, os meus ombros alimentados se queixem um pouco menos quando começarem, ao raiar do sol, nos sacos de cimento.
Friday, August 19, 2011
2. A Fome
Quando voltares, não haverá nada para ti. Só um prato de sopa e um pedaço de pão seco.
Quando voltares, a única coisa que te darei será um prato de sopa.
Se voltares, farei para que tenha um prato de sopa quente para te receber.
Volta, por favor.
Volta, e dar-te-ei tudo. Dar-te-ei o meu mundo.
Um prato de sopa e um naco de pão seco.
Quando voltares, a única coisa que te darei será um prato de sopa.
Se voltares, farei para que tenha um prato de sopa quente para te receber.
Volta, por favor.
Volta, e dar-te-ei tudo. Dar-te-ei o meu mundo.
Um prato de sopa e um naco de pão seco.
Wednesday, August 17, 2011
3. A Morte
Vim morrer a Ribeira de Pena. Não vim por amigos perdidos ou familiares esquecidos, nem por amores antigos de uma juventude feita de beijos roubados, de bom grado furtados debaixo das longas saias das mães. Não vim pelas memórias contadas pela calçada e pelas esquinas, e muito menos para morrer entre as quatro paredes que me viram nascer. Vim morrer a Ribeira de Pena porque tem de ser.
Não é um acto simbólico de ciclicismos da vida. Não vim por um arrependimento que, chegada tão perto a hora da morte, me obriga a tentar colmatar falhas do passado - e falhar. Não é um acto de egoísmo, não vim para que me vissem falecer os que compartilham do meu sangue, e por sua dor se compadecessem de mim. Não vim porque não tinha mais para onde ir, Ribeira de Pena é o último sítio em que penso como sendo um possível refúgio. Vim para Ribeira de Pena porque aqui não há barulho, e quero ouvir as asas da morte chegando.
Não me importo de reviver as memórias de um passado tão doce quanto mais distante, não me importo de me rodear dos que me são próximos, dos meus amigos de infância e dos irmãos que me restam, e tão-pouco me importo se um amor do mais-que-perfeito me revisita e me faz provar do fantasma daquele sentimento de fuga, violação de regras, hormonas e pele. Mas no fim, não importa. Vim morrer a Ribeira de Pena porque sei que a morrer, morro só, e mais vale só que mal acompanhado.
Não é um acto simbólico de ciclicismos da vida. Não vim por um arrependimento que, chegada tão perto a hora da morte, me obriga a tentar colmatar falhas do passado - e falhar. Não é um acto de egoísmo, não vim para que me vissem falecer os que compartilham do meu sangue, e por sua dor se compadecessem de mim. Não vim porque não tinha mais para onde ir, Ribeira de Pena é o último sítio em que penso como sendo um possível refúgio. Vim para Ribeira de Pena porque aqui não há barulho, e quero ouvir as asas da morte chegando.
Não me importo de reviver as memórias de um passado tão doce quanto mais distante, não me importo de me rodear dos que me são próximos, dos meus amigos de infância e dos irmãos que me restam, e tão-pouco me importo se um amor do mais-que-perfeito me revisita e me faz provar do fantasma daquele sentimento de fuga, violação de regras, hormonas e pele. Mas no fim, não importa. Vim morrer a Ribeira de Pena porque sei que a morrer, morro só, e mais vale só que mal acompanhado.
Sunday, August 14, 2011
Escrevendo para nós.
Ninguém quer saber dos sonhos ou suspiros alheios. Chegou o momento em que ninguém mais quer saber do outros "eus", para além daquilo que é uma constante novidade.
Ainda me pergunto por quê as pessoas continuam a escrever sobre os seus sonhos ou seus suspiros, afinal de contas, quem irá ler?
Escrevemos para nós, pensando que somos constituídos apenas de uma só pessoa que pertence apenas a um só corpo. Até que chega aquele momento em que descofiamos que esta única alma não é tão pequena, transformando-se de pequena para complexa e grande. E as vezes, sendo até difícil de ser carregada dentro deste único corpo. Então, escrevemos através da mesma mão, conversando com as várias almas que parecem existir dentro de nós e por este motivo, escrevemos para nós mesmos. Sendo nós, nunca os mesmos.
Ainda me pergunto por quê as pessoas continuam a escrever sobre os seus sonhos ou seus suspiros, afinal de contas, quem irá ler?
Escrevemos para nós, pensando que somos constituídos apenas de uma só pessoa que pertence apenas a um só corpo. Até que chega aquele momento em que descofiamos que esta única alma não é tão pequena, transformando-se de pequena para complexa e grande. E as vezes, sendo até difícil de ser carregada dentro deste único corpo. Então, escrevemos através da mesma mão, conversando com as várias almas que parecem existir dentro de nós e por este motivo, escrevemos para nós mesmos. Sendo nós, nunca os mesmos.
Saturday, August 13, 2011
Da cave
Depois de tudo o que vivemos talvez não exista mais nada. Lembro-me de uma cela sombria e de um frio nas costas. Depois de tudo o que vimos talvez não exista mais nada. Lá longe rodopia uma maré estranha e concisa. Entre o passado e o presente, entre a dor e a solidão. E de nós nenhum voltará. Nenhum voltará com asas se nelas se entorpecem os dias até que definhem por si mesmos. Do branco da alma nenhuma pureza.
Quando me tiraram da cela escura dos dias saí sem mim. Deixei o corpo e a razão que pensava ter. Nas paredes escuras de um negro comum esqueci-me de ti. Esqueci-me dos olhos e da cara e entre nós só as tuas mãos. Só a tua vontade de elevar algumas coisa que na verdade só diminui quem vê. Quem espera e quem sonha.
Quando o vento chegou eu já não podia avançar. Quando o vento chegou e me empurrou para um mundo eu já não era ninguém. E o vento soprava. Corria-me no corpo, arrepiava-me por dentro. Mas eu era uma estátua. Eu estava vazio de mim. Quando a maré baixava não havia mais nada senão essa cela sombria de onde conto os meus dias. Onde os escrevo com uma ternura perdida, onde desenho os sonhos que nunca terei. São pinturas rupestres dos dias que não vi mas podiam ser meus.
Nas paredes desenho as caras, os braços, os amores que nunca tive. Nas paredes de uma cela desenho a preto e branco as histórias que afinal não pude viver. Tenho no meu corpo um velho que definha, tenho em mim a criança que chora sem que tenha vontade de o fazer. Quando a maré sobe já não é mais dia. Quando a maré sobe porque nos puxa o tempo já não somos ninguém. E talvez aí… num planalto sedento de tudo possamos ver enfim, como nos afogaram no mar.
E de lá, desse fim de todas as coisas, dessa solidão que se perde em nós quando nos perdemos de tudo podemos enfim ver, que nós, que nunca vimos o mar fazíamos afinal parte das ondas. Fazíamos parte de um sítio mais eterno que o fugaz horizonte. Não sabíamos da cela como o mundo era mais vasto, não sabíamos de lá como em nós viviam os sonhos que nunca pudemos ter.
Wednesday, August 10, 2011
1. A Guerra
'Mamã, eu também quero lutar' era o desejo de todos, altos e baixos, gordos e magros, feios e bonitos, corajosos e fracos - e os que morreriam e os que não morreriam. Todos queriam empunhar espadas, independentemente da morte.
Todas as semanas era realizado o que os outros chamavam um rito fúnebre, ao Domingo, como de costume. Os meninos viam ser enterrados os corpos dos seus papás, que chegavam no Sábado ainda fora dos caixões, apressada e disfarçadamente envoltos em mantos, sabiamente negros. Caixões não preparados para os que chegaram, mas para os que viriam, alguém, quem, não sabiam. Não sabiam que nomes pôr no mármore, sabiam apenas que havia mármore a ser preparado e caixões a serem envernizados.
Todos os dias havia reunião no adro da igreja para ouvir notícias da guerra. Todos os dias um oficial do governo era enviado pela Cidade para dar as novas, de aldeia em aldeia, do que se passava 'lá fora'. 'Lá fora' era o que diziam, para nos distraír do cá dentro, um reboliço parecido ao da guerra. Um reboliço que se tentava apaziguar, amainar, ao contrário da guerra lá fora. Todos os dias, viemos a saber no fim, isolados de quem nos fora tirado, aprendemos de que morriam uns e iam a morrer outros e queriam ir morrer mais uns ainda por causas mentidas. Mas todos os dias, no fim de missas diárias, rezadas pelas almas dos que partiram, íamos ouvir o que o senhor de fato, fato como nenhum de nós tinha ou sonhava existir, sabia da guerra. O que nós não sabíamos, nem nunca soubemos.
Todos os sábados apertávamos corações e tomates para irmos ouvir morrer amigos e maridos, de se lhes dizer o nome. Eram sentenças passadas pelo senhor de batina, cujo único resultado era ou vida ou morte. Ou morte. Com palavras em maiúscula éramos ceifados das nossas esperanças, ceifados que eram os nossos irmãos pela boca do padre, nossos pais, filhos, enamorados, noivos até, maridos e cunhados, padrastos, padeiros de todos os dias e leiteiros de de vez em quando, e o senhor dos pombos, o porteiro da escola, o senhor doutor da nossa terra, que fora cuidar dos coitados, sará-los daquilo que o que lhes era imposto lhes fazia, ah, e o rapaz do futebol, que tão bem que ele jogava, não morreu mas ficou sem uma perna, e o amigo dele, que o desamparou do outro lado, caíam que nem tordos, os que nos saíam da beira, levados por Alguém, iam voar e vinham cair os corpos à terra que os viu nascer, e que era lei que os visse mortos, porque morrer não podia ver que iam morrer longe, vinham chover as carcaças que ficavam, lembrar-nos que tantas vezes víramos aqueles rostos vivendo em várias dezenas de alturas, vivos, chorando ou rindo, comprazendo-se ou dolendo, não importa, mexiam membros e diziam cousas, eram nossos vizinhos e nossa família, e foram para o estrangeiro morrer, longe de quem lhes queria bem, de quem não queria que fossem, longe do regaço da mãe e do colo da enamorada, longe até da mão dura do pai que tão bem que sabe o raro carinho, iam para o desconhecido, armados com o que não lhes fazia falta dentro portas, e desarmados do importante, lanternas para ver no escuro, açorda da mãe, caldo verde da avó, doce de laranja da mana mais velha, que tão bem que faz doçaria, chora agora a coitada desalmada na calçada do cemitério, ela mais a noiva do defunto, pobre dela que viuvou antes ainda de casar, choram ambas que nem madalenas em frente aos portões da casa eterna, para onde vai o corpo do mano mais novo, vinha namorando a menina dos farias desde quando ainda era piqueno e só corria por entre prados, vai numa procissão de negro, mas a mana leva o doce de laranja que tanta falta fez ao joaozinho pelas terras inimigas, zinho o tanas, era já um homem, não se via o homem, feito que estava, arrepiando caminho para a cova, olha-o, vai atrás do pai e vem o filho dos correias atrás, onde é que era um menino, era joao de corpo e alma feitos, só não vai a enterrar pelo próprio pé porque a pé já foi ele para morrer, que descanse agora o homem corajoso, depois de tanta guerra, fome que terá passado, medo que terá tido, matança que terá visto, amizades sem que terá ficado, comandantes que o terão amedrontado, saudades que terá tido, cuecas que terá borrado, balas de que se terá safado, emboscadas que lhe terão acontecido, armas que terá disparado, vermelho que terá sangrado, sangue que terá derramado, loucura que o terá invadido, céu que lhe terá caído, terra que lhe terá fugido, alma que terá perdido, antes do corpo lhe ter perecido.
Todas as semanas era realizado o que os outros chamavam um rito fúnebre, ao Domingo, como de costume. Os meninos viam ser enterrados os corpos dos seus papás, que chegavam no Sábado ainda fora dos caixões, apressada e disfarçadamente envoltos em mantos, sabiamente negros. Caixões não preparados para os que chegaram, mas para os que viriam, alguém, quem, não sabiam. Não sabiam que nomes pôr no mármore, sabiam apenas que havia mármore a ser preparado e caixões a serem envernizados.
Todos os dias havia reunião no adro da igreja para ouvir notícias da guerra. Todos os dias um oficial do governo era enviado pela Cidade para dar as novas, de aldeia em aldeia, do que se passava 'lá fora'. 'Lá fora' era o que diziam, para nos distraír do cá dentro, um reboliço parecido ao da guerra. Um reboliço que se tentava apaziguar, amainar, ao contrário da guerra lá fora. Todos os dias, viemos a saber no fim, isolados de quem nos fora tirado, aprendemos de que morriam uns e iam a morrer outros e queriam ir morrer mais uns ainda por causas mentidas. Mas todos os dias, no fim de missas diárias, rezadas pelas almas dos que partiram, íamos ouvir o que o senhor de fato, fato como nenhum de nós tinha ou sonhava existir, sabia da guerra. O que nós não sabíamos, nem nunca soubemos.
Todos os sábados apertávamos corações e tomates para irmos ouvir morrer amigos e maridos, de se lhes dizer o nome. Eram sentenças passadas pelo senhor de batina, cujo único resultado era ou vida ou morte. Ou morte. Com palavras em maiúscula éramos ceifados das nossas esperanças, ceifados que eram os nossos irmãos pela boca do padre, nossos pais, filhos, enamorados, noivos até, maridos e cunhados, padrastos, padeiros de todos os dias e leiteiros de de vez em quando, e o senhor dos pombos, o porteiro da escola, o senhor doutor da nossa terra, que fora cuidar dos coitados, sará-los daquilo que o que lhes era imposto lhes fazia, ah, e o rapaz do futebol, que tão bem que ele jogava, não morreu mas ficou sem uma perna, e o amigo dele, que o desamparou do outro lado, caíam que nem tordos, os que nos saíam da beira, levados por Alguém, iam voar e vinham cair os corpos à terra que os viu nascer, e que era lei que os visse mortos, porque morrer não podia ver que iam morrer longe, vinham chover as carcaças que ficavam, lembrar-nos que tantas vezes víramos aqueles rostos vivendo em várias dezenas de alturas, vivos, chorando ou rindo, comprazendo-se ou dolendo, não importa, mexiam membros e diziam cousas, eram nossos vizinhos e nossa família, e foram para o estrangeiro morrer, longe de quem lhes queria bem, de quem não queria que fossem, longe do regaço da mãe e do colo da enamorada, longe até da mão dura do pai que tão bem que sabe o raro carinho, iam para o desconhecido, armados com o que não lhes fazia falta dentro portas, e desarmados do importante, lanternas para ver no escuro, açorda da mãe, caldo verde da avó, doce de laranja da mana mais velha, que tão bem que faz doçaria, chora agora a coitada desalmada na calçada do cemitério, ela mais a noiva do defunto, pobre dela que viuvou antes ainda de casar, choram ambas que nem madalenas em frente aos portões da casa eterna, para onde vai o corpo do mano mais novo, vinha namorando a menina dos farias desde quando ainda era piqueno e só corria por entre prados, vai numa procissão de negro, mas a mana leva o doce de laranja que tanta falta fez ao joaozinho pelas terras inimigas, zinho o tanas, era já um homem, não se via o homem, feito que estava, arrepiando caminho para a cova, olha-o, vai atrás do pai e vem o filho dos correias atrás, onde é que era um menino, era joao de corpo e alma feitos, só não vai a enterrar pelo próprio pé porque a pé já foi ele para morrer, que descanse agora o homem corajoso, depois de tanta guerra, fome que terá passado, medo que terá tido, matança que terá visto, amizades sem que terá ficado, comandantes que o terão amedrontado, saudades que terá tido, cuecas que terá borrado, balas de que se terá safado, emboscadas que lhe terão acontecido, armas que terá disparado, vermelho que terá sangrado, sangue que terá derramado, loucura que o terá invadido, céu que lhe terá caído, terra que lhe terá fugido, alma que terá perdido, antes do corpo lhe ter perecido.
Monday, July 11, 2011
Gira, dá Volta e Gira
Gira, dá a volta e puxa! Tão simples quanto isso. Fica fechado. Não há volta a dar, não há maneira de sair e assim, simples e rápido, o mundo fica selado.
Gira, dá a volta e puxa, é o que basta para não fugir, para não escorrer, para não mais viver. Um mínimo esforço e um grande resultado. Uma outra historia que não vai ocorrer e tudo continua como deve ser.
Gira, dá a volta e puxa! É isto que é preciso para fechar. Um preservativo é preciso lacrar para não deixar o esperma sair e engravidar, ou até adoentar. Coitados dos pequenos que ainda não são gente, nunca o serão, nunca tiverem a oportunidade de o vir a ser, basta esse rápido gesto ocorrer.
Tanta gente que poderia nascer. Tantos fechos e selamentos e lacramentos e impedimentos e nenhuma vida a ter lugar. Tanto esforço, energia, cansaço, satisfação e um pequeno gesto torna tudo em vão. Um pequeno movimento e tudo é para nada, tudo é para o momento, tudo é para o prazer.
Gira, dá a volta e puxa!
Gira, dá a volta e puxa, é o que basta para não fugir, para não escorrer, para não mais viver. Um mínimo esforço e um grande resultado. Uma outra historia que não vai ocorrer e tudo continua como deve ser.
Gira, dá a volta e puxa! É isto que é preciso para fechar. Um preservativo é preciso lacrar para não deixar o esperma sair e engravidar, ou até adoentar. Coitados dos pequenos que ainda não são gente, nunca o serão, nunca tiverem a oportunidade de o vir a ser, basta esse rápido gesto ocorrer.
Tanta gente que poderia nascer. Tantos fechos e selamentos e lacramentos e impedimentos e nenhuma vida a ter lugar. Tanto esforço, energia, cansaço, satisfação e um pequeno gesto torna tudo em vão. Um pequeno movimento e tudo é para nada, tudo é para o momento, tudo é para o prazer.
Gira, dá a volta e puxa!
Tuesday, May 17, 2011
Quem de vós sabe amar?
Quem de vós sabe amar?
Como se o amor fosse fossa escura, humilde no seu terror. Como se fosse medo e esperança na perna que não fala, no braço que não cresce, na boca que não come.
E terror.
Terror a olhos vistos na vida crua: desespero. Desespero entre a pele e a alma. Desespero cimentado na pele sombria já de morte, sombria de vida, de esperança que não tem.
Quem de vós sabe amar? Nestes tempos difíceis, quem de vós, pode e sabe iluminar?
Como se o amor fosse fossa escura, humilde no seu terror. Como se fosse medo e esperança na perna que não fala, no braço que não cresce, na boca que não come.
E terror.
Terror a olhos vistos na vida crua: desespero. Desespero entre a pele e a alma. Desespero cimentado na pele sombria já de morte, sombria de vida, de esperança que não tem.
Quem de vós sabe amar? Nestes tempos difíceis, quem de vós, pode e sabe iluminar?
In O ranger do mundo Novembro / 2008
Monday, April 25, 2011
Sunday, April 10, 2011
Na palma da minha mão escrevias um mundo em mim. E eu, cega de felicidade, lia-o ao contrário, e lia amor para sempre, e uma reza de pertença. Lia palavras por existir, que não estavam na mão, estavam ainda na minha mente, engaioladas no remoto mundo onde um tu diferente daquele que me escreve na mão vive. Juntava letras separadas e apagava espaços. Unia-nos na palma da minha mão, numa união de tinta efémera.
Na palma da minha mão escrevias um mundo em mim. Escrevias amor paixão luz nudez eu tu. Tudo me dizia o mesmo, dizia-me o teu nome em tom grave de lume aceso. Arriscava-me a perder-te sem saber, mas naquele momento, em que escrevias na palma da minha mão com os teus dedos, perdíamo-nos os dois num mundo alheio. Exista somente eu para ti, e existias somente tu para mim. Tudo o resto era negro, era nada. O tempo não passava, o espaço não importa. Importavam somente os teus olhos verdes da relva, e o meu peito palpitante. Importava a luz solar que te iluminava para mim, ou o brilho apagado de uma lua nova que nos escondia do mundo que não nos pertencia. Queria dar-te todo o meu eu, todo o meu eu ardido por um lume que só o teu corpo conseguia abafar, e que crepitava quando os teus olhos verdes não estavam disponíveis para contemplar. Batia o meu coração corredor nas horas antes de te ver, antes de te abraçar, antes de te beijar, antes de fazer amor contigo, antes de te abraçar, outra e outra vez; batia o meu coração corredor nos momentos após te deixar, alimentado pelos resquícios do teu cheiro e do som da tua voz.
Na palma da minha mão leio um mundo engolido pelo tempo, leio um nada feito a partir de um passado que foi tudo. Foste tudo para mim, até te ires. Foste o meu mundo, foste parte integrante do meu eu. Eras eu e eu era tu, até te ires. De ti, ficam memórias de uns anos que foram os melhores anos, ficam presentes guardados em caixas amarrotadas de esquecimento, ficam as marcas indeléveis da tua passagem pela minha vida, e fica um amor que não encontrou par. De ti, fica um mundo só nosso, guardado algures na virtualidade de uma possibilidade que passou ao lado do real e do tangível. Fica um mundo que revisito, por vezes, em sonhos acordados, onde contigo estou de novo, vivendo o fantasma de um sentimento que me dominou demais para me abandonar por completo enquanto meu coração bater. Foste-te, e agora, sozinha, em frente à lareira, inspirada pelo crepitar de um lume que finjo ser o teu, revisito-te mais uma vez. E abraço-te só mais uma vez...
Na palma da minha mão escrevias um mundo em mim. Escrevias amor paixão luz nudez eu tu. Tudo me dizia o mesmo, dizia-me o teu nome em tom grave de lume aceso. Arriscava-me a perder-te sem saber, mas naquele momento, em que escrevias na palma da minha mão com os teus dedos, perdíamo-nos os dois num mundo alheio. Exista somente eu para ti, e existias somente tu para mim. Tudo o resto era negro, era nada. O tempo não passava, o espaço não importa. Importavam somente os teus olhos verdes da relva, e o meu peito palpitante. Importava a luz solar que te iluminava para mim, ou o brilho apagado de uma lua nova que nos escondia do mundo que não nos pertencia. Queria dar-te todo o meu eu, todo o meu eu ardido por um lume que só o teu corpo conseguia abafar, e que crepitava quando os teus olhos verdes não estavam disponíveis para contemplar. Batia o meu coração corredor nas horas antes de te ver, antes de te abraçar, antes de te beijar, antes de fazer amor contigo, antes de te abraçar, outra e outra vez; batia o meu coração corredor nos momentos após te deixar, alimentado pelos resquícios do teu cheiro e do som da tua voz.
Na palma da minha mão leio um mundo engolido pelo tempo, leio um nada feito a partir de um passado que foi tudo. Foste tudo para mim, até te ires. Foste o meu mundo, foste parte integrante do meu eu. Eras eu e eu era tu, até te ires. De ti, ficam memórias de uns anos que foram os melhores anos, ficam presentes guardados em caixas amarrotadas de esquecimento, ficam as marcas indeléveis da tua passagem pela minha vida, e fica um amor que não encontrou par. De ti, fica um mundo só nosso, guardado algures na virtualidade de uma possibilidade que passou ao lado do real e do tangível. Fica um mundo que revisito, por vezes, em sonhos acordados, onde contigo estou de novo, vivendo o fantasma de um sentimento que me dominou demais para me abandonar por completo enquanto meu coração bater. Foste-te, e agora, sozinha, em frente à lareira, inspirada pelo crepitar de um lume que finjo ser o teu, revisito-te mais uma vez. E abraço-te só mais uma vez...
Tuesday, April 5, 2011
a negrura iluminada
quando à noite olho o céu e não estás comigo
o vazio do céu manifesta-se em mim
e eu pereço um pouco
já não olhas o céu comigo
quase nunca olhaste
eu olhava-o pleno
e nao te via a desviar o olhar
agora olho-o e a tua presença preenche-me
com o vazio
as estrelas iluminam a ausência de ti
o mundo à minha volta desaparece
e o nada enche-me de tudo
respiro um ar que me transporta
para onde tu estás
daí fico no mesmo sítio
a minha mão no vidro da minha janela
e a tua num algures do planeta
o vazio do céu manifesta-se em mim
e eu pereço um pouco
já não olhas o céu comigo
quase nunca olhaste
eu olhava-o pleno
e nao te via a desviar o olhar
agora olho-o e a tua presença preenche-me
com o vazio
as estrelas iluminam a ausência de ti
o mundo à minha volta desaparece
e o nada enche-me de tudo
respiro um ar que me transporta
para onde tu estás
daí fico no mesmo sítio
a minha mão no vidro da minha janela
e a tua num algures do planeta
Monday, February 28, 2011
Nós feitos de ninguém
Quem sou eu para falar num "tu"?
Para dizer "a ti"?
Para fazer "por ti",
"Contigo"?
A escrita é solidão.
Eu, a mim, por mim, comigo.
Tu não.
Se porventura falar num tu
Serão então cartas nunca enviadas
Não por vontade, ou coragem, ou inteligência,
Mas por sua inexistência.
São cartas a um ninguém presente,
A um alguém ausente,
E a ambos, simultaneamente.
Quem és tu, afinal? Tu, a quem dedico tantos textos?
És um eu que não existe,
Um eu em potência, em vontade;
Um eu em falta de verdade.
Não existes. Não existo.
Tu e eu somos um.
Falo comigo quando falo contigo.
Contudo, és ao mesmo tempo tu
Em ti mesma, tu própria
És um tu comigo
És - somos um nós.
Falo. em simplicidade,
Com Ninguém.
Falo pela simples necessidade
De falar com a folha.
Para dizer "a ti"?
Para fazer "por ti",
"Contigo"?
A escrita é solidão.
Eu, a mim, por mim, comigo.
Tu não.
Se porventura falar num tu
Serão então cartas nunca enviadas
Não por vontade, ou coragem, ou inteligência,
Mas por sua inexistência.
São cartas a um ninguém presente,
A um alguém ausente,
E a ambos, simultaneamente.
Quem és tu, afinal? Tu, a quem dedico tantos textos?
És um eu que não existe,
Um eu em potência, em vontade;
Um eu em falta de verdade.
Não existes. Não existo.
Tu e eu somos um.
Falo comigo quando falo contigo.
Contudo, és ao mesmo tempo tu
Em ti mesma, tu própria
És um tu comigo
És - somos um nós.
Falo. em simplicidade,
Com Ninguém.
Falo pela simples necessidade
De falar com a folha.
Wednesday, February 16, 2011
Vazio
Estou sentado na cama
a olhar a parede vazia.
Ligo a televisão para ter companhia.
Não me apetece estar sozinho.
Apetece-me estar mal acompanhado.
Nunca me apetece estar sozinho.
Morro para o exterior do quarto.
Só existe o quarto.
Só existe o silêncio e a ausência, comigo.
Só existe a falta.
Só existe a inexistência.
Alapo na cama, completamente inanimado.
Contemplo a parede
Caído contra a parede oposta.
Acompanhado pelo vazio que inunda o quarto
e eu.
A ambos.
Inunda-nos a nós, toma o quarto para si.
E fora das quatro paredes vazias,
o nada.
o nada em todo o lado.
O meu coração bate, e dá sinais de vida.
Rapidamente é também engolido
Onde estás
...
quem és
a olhar a parede vazia.
Ligo a televisão para ter companhia.
Não me apetece estar sozinho.
Apetece-me estar mal acompanhado.
Nunca me apetece estar sozinho.
Morro para o exterior do quarto.
Só existe o quarto.
Só existe o silêncio e a ausência, comigo.
Só existe a falta.
Só existe a inexistência.
Alapo na cama, completamente inanimado.
Contemplo a parede
Caído contra a parede oposta.
Acompanhado pelo vazio que inunda o quarto
e eu.
A ambos.
Inunda-nos a nós, toma o quarto para si.
E fora das quatro paredes vazias,
o nada.
o nada em todo o lado.
O meu coração bate, e dá sinais de vida.
Rapidamente é também engolido
Onde estás
...
quem és
Friday, February 11, 2011
Doloris causa
Dói, e não sei do que é
Se da mão, da cabeça ou do pé
Se dói tudo, ou se só dói uma por todas
As dores que julgo ter
E que parecem doer
E que sinto moer.
Não sei o que me dói.
Só sinto a dor
De lembranças e memórias
De medos e esperanças
E do presente.
Do Agora.
Retiro a venda. Começo a ver.
Doem-me os olhos
Tirem-me esta nova dor...
...
Ninguém.
Se da mão, da cabeça ou do pé
Se dói tudo, ou se só dói uma por todas
As dores que julgo ter
E que parecem doer
E que sinto moer.
Não sei o que me dói.
Só sinto a dor
De lembranças e memórias
De medos e esperanças
E do presente.
Do Agora.
Retiro a venda. Começo a ver.
Doem-me os olhos
Tirem-me esta nova dor...
...
Ninguém.
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